Elegante ostentação

Foto por Renato Frade [www.facebook.com/RenatoFradeFotografia]

Me peguei assistindo a um programa de tv sobre o “Funk Ostentação”, movimento predominante em nossas periferias onde os cantores, chamados de MC’s ganham muito dinheiro e fazem questão de exibir isso em letras e indumentária. Movimento que, diga-se, desagrada e muito a nata intelectual da classe média que frequenta as redes sociais, seja pela música, seja pelo estilo em que pesadas correntes de ouro são sobrepostas a roupas e bonés de grife.

Nesse ponto, cabe uma descrição mais detalhada: Os caras exibem quilos de ouro, portam relógios Rolex, andam em super carros e vestem roupas de grife como Dolce & Gabana, Armani…

A intelectualidade paulistana tem motivos de sobra para desaprovar estes funkeiros:

_ As letras são pobres, exaltando o consumo ou o sexo;

_ As músicas não tem melodia;

_ Os MC’s não estudaram, falam errado e são incultos. Seu sucesso é um péssimo exemplo para os jovens;

_ A exaltação do consumo de luxo para um público que não tem acesso aos bens caros é um convite a criminalidade.

Esses são alguns exemplos do que  pensam os elegantes sobre os Mc’s.

Só que no dia da matéria do funk também vi a chamada de um novo programa da GNT chamado “Pirei”, com a atriz Beth Lago. Na chamada ela mostrava lojas fora do Brasil em que “pirava” ao lado de outras amigas atrizes.

Isso me lembrou de meus amigos de classe média e abastados. No churrasco de domingo as moças conversam sobre suas bolsas que custam múltiplos de mil reais enquanto os rapazes dão um pulinho na garagem para ver a nova SUV do anfitrião. E se a conta está apertada e não dá para esbanjar na bolsa ou no carrão há sempre um celular novo ou a habilidade dos filhos.

Parece que ostentar é uma característica primordial da condição humana. Perdemos os pelos, o rabo e evoluímos para criaturas eretas, capazes de se comunicar  por uma complexa linguagem de sons e sinais e passamos a exibir ao vizinho a nova decoração da nossa caverna:

_ Tá vendo essa tocha? É importada da Mesopotâmia!

Assim, como culpar os funkeiros que não fazem mais do que extravasar uma vontade que é de todos? Lembrando ainda que a ostentação foi negada às periferias desde sempre.

Acho natural que alguém que sempre passou fome exagere na dose quando surge a oportunidade de uma boca livre.

O funk ostentação é feio, inculto e não vai ensinar muito aos seus fãs. Poderia ao menos ensinar a quem se julga culto que qualquer ostentação é deselegante, seja no baile da Pavuna, seja no Shopping JK.

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