Uma guitarra muda

Conheci o Velhinho quando tínhamos 11 anos. Nossos pais contruíram casas de campo no mesmo condomínio e caímos na mesma classe na escola. Em pouco tempo éramos inseparáveis, nos encontrando 7 dias por semana.

Logo veio a adolescência e começamos a crescer juntos.

Éramos CDF´s e competíamos pelas melhores notas na escola e essa era a única competição em que eu era páreo para ele. O Velhinho era o melhor em qualquer esporte, fazia um sucesso incrível com as meninas e ainda era um fenômeno no violão.

Quando éramos adolescentes, decidimos ser roqueiros. Cada um se esforçou para aprender um instrumento. Eu era o baixista da banda (aquele que ninguém dá bola). O Velhinho era o vocalista e guitarrista solo. Ele brilhava.

Com todas as diferenças, havia harmonia entre nós. Eu fazia as letras, ele musicava.

Levou uns 3 anos para percebermos que não podíamos tocar juntos, ele era muito talentoso. Tanto que largou o Direito para fazer faculdade música. Eu segui a carreira de “não músico”, mantendo o baixo e o violão ao meu lado por toda a vida, mas nunca estudei. Não sei a diferença de um colchete para um sustenido.

Por toda juventude compartilhamos sonhos e projetos, estivemos juntos em inúmeros momentos mas fomos atropelados pela vida. Cada qual com sua rotina, com sua família, nos víamos cada vez menos. Mas as aventuras que vivemos na adolescência haviam criado um amálgama que nos unia. Não importa quanto estávamos distantes, éramos sempre os velhos amigos de infância.

Creio ter faltado nos últimos dois ou três encontros da velha turma, ele também não pôde ir ao último aniversário da minha filha. É a vida, não é mesmo? Tantos compromissos, trabalho, filhos… Nossas últimas conversas  aconteceram por Whatsapp.

Às vezes pensava nele quando ouvia algo musicalmente muito bom ou quando tirava no violão uma música difícil – “O Velhinho ia gostar dessa aqui“. Eu queria mostrar para ele um arranjo que fiz para “Love of My Life”, mas isso não será possível.

Um estúpido acidente de moto levou o Velhinho embora dois dias atrás, deixando uma guitarra muda e um mundo de pessoas petrificado.

Meu violão continuará tocando mais triste até que o tempo permita aceitar essa perda e lembrar com carinho do velho amigo. Até lá, cada nota, cada acorde, cada vibração das cordas vai trazer o vazio deixado por alguém cuja missão de vida foi espalhar harmonia. Missão cumprida lindamente.

13 comentários

  1. Meu querido amigo… não ia fazer nenhum comentário neste seu post. Como sempre, seus textos são maravilhosos e irretocáveis… escreves com maestria. É muito triste perder um amigo e isto eu sei bem. Não ia fazer nenhum comentário… até que cheguei na parte que em que você começa com “Um estúpido acidente de moto levou…”. Porque?! O primeiro jogo do Brasil na copa passei no hospital com meu filho caçula, após o mesmo sofrer uma queda de moto. Graças a Deus a maior sequela foi ter o ouvido dolorido pelo meu falatório. Ouviu de mim, além de meu amor escancarado, toda minha inquietação. Não era a primeira vez que isto acontecia entre meus filhos. Meu falatório varou a semana seguinte até que “Um estúpido acidente de moto levou…” seu amigo de infância,cujo pai é vizinho e amigo meu de longa data. Um menino de 18 anos que até pouco tempo vivia soltando papagaios, juntos em frente de minha casa. Enfim… uma triste coincidência. Deixo aqui externado meus sentimentos…Parabéns pelo texto primoroso. Verdadeira homenagem. Um grande e fraterno abraço!

    1. Meu caro, que triste coincidência. O blog ajuda a gente a pensar nas coisas da vida. Juntos é mais fácil para enfrentar esses perrengues. Espero que seu filho fique bem e escolha um transporte mais seguro.

  2. Lúcio, obrigado pelo seu post. Chorei de novo ao relembrar de alguns desses maravilhosos momentos que pude desfrutar com vocês!

  3. As vezes escrever é a melhor forma de lidarmos com traumas e perdas inestimáveis, Lucio já era fã do seu blog e agora ainda mais.

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