Conversas alheias

Se eu pudesse dar um único conselho a quem quer escrever livros ou roteiros, este conselho seria: abandone seu carro. Use o transporte público.

Opa, tem um segundo conselho: Abandone também o fone de ouvido.

Amigo criativo, a vida acontece nas ruas, nos botecos, no vagão do metrô, no ônibus e não nas redes sociais, nos bares descolados e muito menos no ar condicionado de um carro.

É na rua entre o movimento dos transeuntes que encontramos histórias e diálogos, percebemos como as pessoas agem, como elas falam. Esse deve ser o combustível de nossa criatividade.

Eu chego ao extremo de anotar as conversas mais interessantes para não esquecer. E como sou muito generoso, vou compartilhar algumas destas conversas com vocês.

E se algum dia uma história minha tiver alguma semelhança com o que você viveu, não estranhe. Provavelmente eu estava ouvindo quando você a contou para sua tia no metrô.

Um adolescente aparentemente pouco instruído explica para o seu amigo – Eu não fui desumilde. Fui um pouco arrogante, mas desumilde, nunca.

No Banheiro do Metrô o faxineiro se apoia na vassoura qual Moisés com seu cajado e aconselha um homem bem vestido que parece estar se preparando para entrevista de emprego – Não pode baixar a cabeça. A vida é uma roda gigante – o faxineiro fala dos maus momentos pelos quais passou até chegar no bom emprego que conseguiu.

Conversa no Metrô:

Mulher: Na cela que eu fiquei tinha traficante, tinha assassina. Era pra ficar três dias fiquei quase um mês

Homem: É bom que descansa.

No trem, um grupo de meninas de 18 anos, muito simples, debate sobre uma nota de 10.000 Guaranis Paraguaios querendo saber o valor da nota em reais. Não aguentei e entrei na conversa. Queria saber como elas haviam conseguido a nota – Nóis trampa de palhaço no sinal – Elas haviam ganho a nota ao pedir dinheiro e imaginavam que era um dinheirão.

Eu acabei de fazer a conta no Gloogle e pelo câmbio atual a nota vale seis reais.

Duas amigas conversando – Não aguento roupa sem passar. Meu marido quer sair de casa todo amassado. Parece que não tem mulher…

Outras mulheres conversando no metrô sobre um marido problemático.  Ele é indiscreto olhando para “as partes” de outras mulheres:

_ Eu é que não fico na rua olhando para o pinto dos homem, olhando para as saliências…

Peguei também o desabafo de dois cozinheiros de um restaurante japonês. Um dizia que se o dono do restaurante não aumentar seu salario para R$2.000,00 ele vai embora.

Uma mulher ao telefone transborda sinceridade – Eu falei pra ela, você é tão podre que quando você morrer nem urubu vai querer te comer.

Duas enfermeiras são mais singelas. Depois de um dia de trabalho que conviveram com pacientes em estado terminal falam da finitude de vida e da importância de fazer tudo o que sonhamos hoje. 

Pode parecer bobo, mas essas conversas nos aproximam do mundo, de outros mundos, outros tipos de problemas, dramas de pessoas de verdade. Também valem as conversas com motoristas de taxi e de aplicativos. Cada um é uma enciclopédia da vida real. Agora é carregar o seu bilhete único e manter os ouvidos bem atentos. Depois é só colocar no papel e comemorar os “Prêmios Jabuti”.

5 comentários

  1. Caraca!!! Lúcio, meu DEUS, eu gargalhei lendo a sua coleção de conversas alheias… Sabe, aquele tipo de risada gostosa que sai bem alta e aguda? AMEI… Era disso que eu precisava hoje: uma boa gargalhada!!!!

    MUITO OBRIGADA!!! 🙂

  2. Ah! A gargalhada acima foi mais de SURPRESA com a riquíssima engenhosidade das construções frasais do nosso povo…Cada uma mais criativa que a outra!!! Eu que fiz letras fico empolgadíssima quando escuto vocábulos tão bem concebidos pelas mentes brasucas.

    Eu volto andando do trabalho. pra casa.. E hoje eu ouvi uma conversa de duas garotas que passaram por mim sobre uma terceira garota que está atrás de um “véio rico” (palavras delas), a qual me fez lembrar de um causo que eu escutei dentro de um ônibus faz uns tempos:

    Uma mulher de meia idade, cansada da labuta diária, queixava-se que havia perdido uma grande oportunidade na vida para sua colega… Como não tenho o mesmo costume que o seu, Lúcio, o de anotar, eu não vou me lembrar das exatas palavras, mas… Era algo do tipo:

    Fui besta… Casei por amô… tivesse casado cum homi rico… eu era bem bunita… mas casei por amô…. E o amô acabô… Num seja besta qui nem eu. Cê é nova ainda.

    😀

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