Eu, a faxineira

Sou um privilegiado. Faço parte da elite. Desde a minha tenra infância, nas distantes terras de São Bernardo do Campo, havia uma empregada doméstica na minha casa.

Isso fez de mim um mimado. Meu trabalho era levar os copos e pratos da mesa para a pia e, de vez em quando, fazer a cama. Sempre achei um milagre que a roupa suja que eu largava no cesto aparecesse limpa nas gavetas dias depois.

Já na vida adulta as coisas deixaram de ser tão simples e comecei a perceber que as tarefas domésticas eram muitas e complexas. Cheguei a contratar uma empregada nos tempos de casado, mas a maior parte da vida optei pela ajuda de uma faxineira uma vez por semana.

Esse sistema era bastante eficiente. Eu moro sozinho, fico fora o dia todo. A casa não suja muito. Normalmente almoço perto do trabalho e à noite como um lanche. Minhas roupas são casuais e fáceis de passar, meu apartamento é relativamente pequeno.

Eis que para nossa surpresa aparece uma pandemia mundial e da noite para o dia nos encontramos em prisão domiciliar, sem empregada e sem faxineira.

No começo isso não me assustou. Adoro cozinhar, estou acostumado a lavar louça e há muito tempo deixei de ser o garoto mimado. Eu sei usar a máquina de lavar e me viro para passar roupas. Vai ser tranquilo.

Meu Deus, que engano…

Um mês depois, trancado em casa e sem poder trabalhar, meu mundo virou um grande e interminável dia da faxina. O chão nunca está limpo. Quando o quarto está bom a cozinha já está cheia de gordura e quando a cozinha está aceitável as janelas estão horríveis. A louça se tornou infinita, faz trinta dias que a pilha de pratos na pia não diminui.

Além disso, me falta know-how. Para que servem tantos produtos? Eu sempre comprei o que a faxineira pediu, agora tenho Sapólio, Pinho Sol, Veja, Multiuso concentrado, Cândida, Desinfetante e não sei qual eu uso para o box, qual para o fogão e qual para o vaso sanitário. Dobrar o lençol com elástico está totalmente fora das minha possibilidades.

Já derrubei cloro na minha camisa favorita, bebi Diabo Verde e enquanto escrevia esse texto, caiu um pano que tampou o ralo do tanque. A água da máquina de lavar transbordou e transformou a área de serviços no Ceagesp em dia de enchente.

Eu deixei a minha barba crescer para parecer um intelectual. Queria aproveitar o tempo de reclusão para escrever novos livros e ter o reconhecimento mundial pelas minhas opiniões brilhantes. No lugar disso acabei aprendendo o a separar as roupas brancas e coloridas na hora da lavagem, a colocar panos de molho, a usar a esponja para limpar os interruptores. Também inventei blends de cloro, Lisoform e álcool em Gel para desinfetar o piso do banheiro.

Se serve de consolo, posso dizer que desenvolvi novas habilidades e levando em consideração a tragédia do mercado audiovisual nos últimos tempos, em breve vocês poderão me chamar para novos tipos de freelancer, longe das claquetes e das lentes, perto de vassouras e esfregões.

3 comentários

  1. Um dos serviços do futuro será muito provavelmente o de testadores e demonstradores em lojas, gurmê ou não, de EPI. Preparem-se!

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