Sinestesia

leia e ouça: roberta cetra || na madrugada

E ela respirou fundo assim que os rapazes da reforma terminaram o trabalho e partiram. Fundo. Respirou bem fundo. Já era noite e, ao fechar a porta, ela resolveu apagar as luzes. Apagar as luzes e ficar no escuro? Não, apagar as luzes para NÃO ficar no escuro. Sim. Ela não ficou no escuro. Deixou o ambiente iluminado apenas pelas lâmpadas coloridas externas, com as quais decidiu decorar a velha árvore que ficava bem em frente ao estúdio, bem em frente a larga e transparente porta de vidro vazada da entrada. A entrada do estúdio. O seu estúdio. O seu ateliê. Santuário. O seu mundo. O mais feliz dos mundos.

E ela respirou fundo mais uma vez e ainda mais forte.

Acendeu a candeia de barro rústico e incensos. Com os incensos acesos, sentiu paz. Muita paz. Desabou ao sentar-se à cadeira de veludo preto encostada junto a parede e começou a observar tudo o que podia. Cada detalhe. Cada mínimo detalhe. Tudinho. Estava mergulhada nos sentidos, em transe, apenas apreciando o que percebia.

Sinestesia.

Tudo bem. Tudo estava bem.

Sentimentos velozes e acelerados a inundaram, assim que se deu conta de como a sua vida tinha chegado até ali, de como a sua vida tinha sido tão veloz e acelerada até aquele instante. Tudo estava lá e tudo estava perfeito. Os cabos de aço, as telas penduradas, os tubos de tinta esparramados, o caderno de música com as letras das canções ainda não compostas, a chaleira, o sachê de chá de jasmim, o laptop sem bateria, o celular esquecido, algumas fotos antigas e outras novas, vários pincéis gastos, outros não, água com gás, água sem gás, água gelada, morna ou fria. Tudo. Tudo estava lá e tudo estava perfeito. Transe.

Sinestesia.

Sorriu, sorriu e sorriu ainda uma vez mais, numa espécie de espiral de alegria instantânea. Uma genuína espiral de alegria. Era no que sua vida tinha se transformado. Era no que a sua vida tinha, finalmente, se transformado: alegria.

Pulou da cadeira de forma atabalhoada e rápida e mexeu os seus braços e pernas de forma agitada, leve, segura, firme e feliz. Sentiu os seus pés descalços em contato com o piso frio e acolhedor do ambiente. Sentiu a energia da vida. Sentiu o sangue correr, o coração bater, a testa suar, a boca salivar e a pele brilhar. Pôs-se a mexer os quadris, os ombros, os cabelos enfim, tudo o que sentia vivo em seu corpo e em sua alma.

Tudo para compor aquela dança. A sua dança. Uma dança solitária. Uma dança ligeira e desencontrada, charmosa e não coreografada, cheia de emoção e movimentos.

Cheia de vida. Repleta dela.

Uma dança da chuva ou um ritual de alegria e purificação. E ela dançou por muito tempo, sem sequer perceber que NÃO havia música tocando. Não havia nada além do som da sua respiração e dos movimentos, pois a música afinal, estava nela. Dançou e dançou e dançou, sem se importar com mais nada. Apenas sentindo-se feliz. A mais feliz das pessoas.

Tudo estava lá e tudo estava perfeito. O que ela queria. Tudo o que ela queria.

Enfim, tudo o que ela mais queria.

Enfim, alegria.

Sinestesia.

…este conto é bastante parecido com o anterior. E é de propósito, mas são sentimentos diferentes. Esse é alegre. E muito. Eu escrevi este conto para Roberta Cetra. Uma grande amiga, artista plástica, cantora e compositora, que está lançando hoje o seu álbum de estreia, assim como está inaugurando o seu espaço, o seu ateliê. E eu, honrado, escrevi algumas letras para algumas canções do álbum. Enfim, desejo toda a sorte do mundo para ela. Leiam, ouçam e, espero, curtam muito. Beijos para quem é de beijos. Abraços para quem é de abraços. ah, e por favor, ouçam o álbum todo aqui…

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