O Beijo Perdido

leia e ouça: bobby oroza || this love

A frustração de um beijo perdido. Nada se compara a frustração de um beijo perdido. Nada. Bem, existem várias situações que se aproximam muito do desespero contido em um beijo perdido como, por exemplo, uma trepada interrompida, um pênalti bem cobrado com a bola na trave, uma festa sem barulho, um carnaval sem multidão, uma ironia sem sorriso, enfim, tantas coisas. No entanto, na verdade, nada se aproxima realmente do desastre que é um beijo perdido. Nada. Pior, além de tal situação ser frustrante e embaraçosa, um beijo perdido ainda provoca a sensação de vazio e desespero em não saber como seria se ele tivesse realmente acontecido. É sórdido. É ruim. É triste. Devasta e deixa marcas. Muitas. É sentir saudade de algo que não viveu. É sentir vontade de algo que não experimentou. É sentir arrependimento por não ter feito algo ou, fatal, não ter nem tentado. É desconfortante. Péssimo. Muito ruim.

E o que mais me incomoda é que naquele dia havia uma conspiração estelar, astral, ou bobagens do tipo que sequer acredito, a meu favor. Ah sim, com certeza. Havia uma tensão no ar como eu nunca havia percebido antes. Ela, agitada, estava sentada ao meu lado dentro do carro e conversando animadamente sobre todos os assuntos que lhe vinham à cabeça. Eu, quieto, prazerosamente escutava as suas opiniões e as nem tanto hilárias histórias que ela contava. Romances tolos com pessoas desinteressantes, mas mesmo assim eu ouvia atento, pois o seu sorriso era lindo. Lindo e divertido. Algo híbrido entre juventude e maturidade. Ingenuidade e devassidão. Delicioso. E tudo ia bem até que aconteceu o inesperado: O momento. Aquele momento.

Eu? Bem, eu simplesmente não soube o que fazer. Não soube e não sei quanto durou. Talvez todo o tempo do sinal fechado. Talvez somente sete ou oito ou dez segundos. Talvez alguns minutos ou mesmo a tarde toda. Eu simplesmente não sei e não me recordo ou apenas quero esquecer quanto tempo a mágica durou. Simples assim. Fato é que, por um instante, por um exato instante, ela ficou apenas calada e olhou nos meus olhos. Fundo. Dentro mesmo, como se quisesse desvendar tudo o que eu pensava. Decifrar o óbvio. E eu pensava muitas e muitas coisas. Coisas demais, aliás. Eu parei, respirei fundo e devolvi o meu melhor olhar, deixando transparecer todo o meu desejo, todo o meu sentimento e as vontades sufocadas. Tudo. Os olhares colidiram de frente em uma velocidade insana e perigosa, sem desvios. Choque frontal e devastador. O desejo, a vontade e a chance. A oportunidade. Tudo estava lá. Naquele instante. Tudo. Naquele absurdo instante. Inclusive o medo. O MEU medo. E assim, como um despreparado incorrigível que sou, apenas desviei o olhar, pisquei rápido e desastrado e comentei como era “legal” a música que começou a tocar no rádio do carro.

Beijo perdido.

O beijo perdido aconteceu.

Naquela exata fração de tempo e espaço.

E ela entendeu e me sorriu. Ela apenas sorriu com carinho e olhou para frente. Fiz o mesmo, respirei fundo mais uma vez e acelerei o carro para seguir adiante. A pisada ligeira no acelerador representou bem o fim instantâneo e veloz de tudo aquilo que eu sempre sonhei. O fim de tudo aquilo que eu queria, mas que jamais aconteceu.

Jamais aconteceu.

E assim, tudo se perdeu, inclusive o beijo, que jamais aconteceu.

Jamais aconteceu.

Photo by george Crux from Free Images

4 comentários

  1. O coração acelerou ao ler. O beijo não dado voltou. Os segundos que duram anos e anos e não se consegue esquecer… Quem nunca perdeu um beijo?

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