Isobel

Era o barco dos sonhos dele. Um veleiro de verdade. Dois mastros e vários conjuntos de velas – balão e latinas, uma grande genoa à frente da proa, as madeiras mais nobres, acabamento de primeira. Motor topo de linha. A pintura branca, tinindo. E uma exclusiva quilha italiana, que deu um trabalho enorme para passar na alfândega.
Foram mais de cinco anos até ficar pronto. Finalmente ele poderia dar uma lição ao Pereira. Amigo de longa data, mas rival no hobby – tinha até então o maior barco da turma. Agora iria esfregar na cara dele.
Foram noites em claro, um casamento e metade do fundo de aposentadoria. Mas valeu a pena. Da Marlene, nem sente muita falta. Afinal, depois de 23 anos de casamento, não há amor que resista. E a aposentadoria, afinal, tinha sido bem gasta. Agora ele podia morrer feliz.
Acalentada há anos, finalmente sua obra ficara pronta. Desde a pesquisa inicial, marcada é verdade, pela visão daquele veleiro enorme no porto de Barcelona, ele mudara oito vezes o projeto, três construtores diferentes.
Finalmente, iria usufruir de sua obra de arte porque, afinal, era assim que via o barco – aliás, Isobel, o nome escolhido quando ele iniciara os trabalhos. Veio do disco Post, da Björk. Engraçado é que quem gostava da cantora islandesa era a Marlene, que, com a separação, levou todos os CDs.
Estava louco para colocá-la na água. Já antevia a leveza da navegação, manobrar as velas estalando de novas, orçar e arribar sem fazer esforço. Confiava no projeto do barco. A afinação, o equilíbrio, o leme ao seu comando no menor toque.
Sábado estava chegando. Já tinha avisado o Pereira – ele não podia faltar.
Noite de sexta, nada de bebida, nada de gandaia. Só uma refeição leve e cama. Uma boa noite de sono para sair de casa com o sol nascendo, o encerado cobrindo a sua menina. O Pereira vai ter um ataque.
Queria ser o primeiro a botar o barco na água, mas Pereira já estava lá com a sua Princesa, barco de respeito, que agora não faria sombra para Isobel.
Queixos caídos, bocas abertas, o Pereira amarelo. Isobel finalmente fazia sua estréia na água. Esguia, veloz, perfeita. Ele não tinha do que reclamar: tinha valido a pena. Se sentia realizado.
Mas logo no bem bom, no melhor do passeio começou a sentir dormência no braço, uma dor aguda no peito. Não deu tempo de reclamar mais alto, nem o Pereira, vidrado em Isobel, percebeu.Foi o tempo de largar o controle e desabar na beira d’água.
Ainda chamaram uma ambulância, mas nada mais podia ser feito quando os enfermeiros chegaram. Isobel continuou navegando às cegas, um nautimodelo perfeito, singrando as ondas do tanque do parque do Ibirapuera. Para piorar, o controle remoto afundou na água suja.

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