À Espreita

leia e ouça: sexo explícito || a faca

Quem visse acharia a cena assustadora e surpreendente demais. Logo ela, tão calma, tão cordata, tão educada e tão sensata. Tão doce. Quem dera? Quem dera alguém visse aquilo. Os seus amigos de agora ou mesmo os seus antigos amigos do passado. Quem dera eles estivessem vendo aquela cena. Quem dera. Deus, como ela o amou e como ainda o amava. Como ela ainda o amava. Pena que ele, não. Não mais. E, ao lembrar disso, ela socou novamente as paredes com força. Muita força. Desespero. Os seus dedos estavam vermelhos. Vermelhos demais, mas ainda vivos. A pele fina, quase sangrando. Quase. Ainda assim, ela não parou. Há minutos estava, em desespero, repetindo o mesmo gesto de raiva e amargor e não desistiu de socar ou arremessar o que estava à sua frente na sala daquele pequeno apartamento. Não desistiu de destruir e rasgar o que visse pela frente e a fizesse lembrar das bobagens que ela mesmo fez e em mentiras as quais acreditou. A frustração era maior do que tudo. Muito maior. Raiva. Poucos sentimentos conseguem tamanha intensidade. Poucos. Muito poucos. E mente, mente MUITO, quem diz que não sente ou nunca sentiu isso. Raiva. Um mentiroso é, isso sim. Enfim, aquela era uma cena de cinema. Cena de desespero. Cena de amor. Amor desfeito. Amor perdido. Destroçado. Rasgado como papel de seda. Frágil. E, depois de tanto esforço, ela apenas cansou, sentou e quando pensou, ela chorou. Chorou demais. Como uma criança. Indefesa. Ela chorou sincera. Monty Python reverso e sem graça nenhuma. Percebeu como estava sendo patética. Já com as mãos bastante machucadas, ajoelhou-se no canto da sala e tentou respirar. Tentou respirar fundo. Não conseguiu. O ar, cruel, insistiu em não ajudá-la. Malditos cigarros que fumava por tantos anos. Maldito amor que sentiu com tanta força. O ar. Pouco. Rarefeito. Perfumado. O perfume dele, incansável e cruel em insistir em ficar no ambiente. Maldito. Maldito aroma. Maldito sabor daqueles lábios. Ela tentou se controlar. Conseguiu por breves instantes. Breves. Olhou ao seu redor a cena babaca criada em seu apartamento. Não acreditou que fosse capaz daquilo. Simplesmente não acreditou. Tanta raiva. Tanta raiva liberada. Discos jogados, flyers do Clube Varsóvia rasgados e que lembravam tantas festas juntos, pendrives danificados, letras de canções em guardanapos amassados e destroçados. Memorabilia de um amor desfeito em desespero e caos. Desespero e caos. Começou a rir ao notar o quão tola estava sendo. Percebeu isto, porém tarde demais. Àquela altura as suas mãos já não estavam apenas vermelhas, elas agora sangravam. E os joelhos também. Quem mandou ajoelhar sobre cacos de vidro de copos americanos espatifados no chão da sala? Quem mandou? Otária. Parou de chorar. Riu desenfreadamente. Inconstante. Levantou-se com cuidado e, trêmula, pegou o seu maço de Marlboro sobre a mesinha da sala. Depois de várias tentativas e erros, conseguiu acender um cigarro e sentou-se no chão, ao lado do pequeno sofá azul petróleo de canto. A cada tragada ela olhou ao redor e não acreditou no que aquele idiota tinha desencadeado. Um surto de amor, paixão, raiva, ódio ou, seja lá o que aquilo tivesse sido. Sentimentos profundos por uma pessoa tão rasa e tão fria. E, a raiva passou. Por instantes, a raiva passou. Ela acabou o cigarro, tomou um gole de um destilado qualquer que estava sobre a mesinha da sala e que, por sorte, não havia sido arremessada para nenhum lugar. Virou direto. Conseguiu respirar depois. Deitou-se no sofá e implorou para todos os santos, mesmo não acreditando em nenhum deles, para não sonhar com ele, com aquele amor. De forma alguma. E assim, depois de muito insistir, ela dormiu. Adormeceu, enfim. O desespero passou naquele instante. O desespero, a fúria e a raiva. Naquele instante. O amor não. Este ficou quieto, escondido em algum lugar soterrado na mente entorpecida pelo sono. O amor, cruel, não passou e sequer foi embora. O amor ficou à espreita, malandro e sacana, pronto para atacar quando ela acordasse ou estivesse desarmada. Pronto para atacar novamente, assim que ela desse uma brecha. Apenas um vacilo seria o suficiente. Pobre moça do coração partido. Pobre moça que, cedo ou tarde, iria ter que acordar. Ter que acordar.

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