K

Quando certa manhã J. acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em uma cama metamorfoseada de mulher. Com sangue quente, duas pernas, dois braços e o pior: um cérebro. 

O que aconteceu comigo? Foi o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça. Primeiro, literalmente.

Para uma barata doméstica como ela (era uma legítima Periplaneta americana), acostumada a andar nos seus três finos pares de pernas, do tipo ambulatorial, levantar de uma cama, ainda mais uma king size, foi desastroso. E pior, o que antes era uma ação natural, agora ela racionalizava. Tudo dava ainda mais errado.

Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse essas tolices – pensou. Mas isso era completamente irrealizável. Foi só depois de muito tempo, e várias tentativas, que ela finalmente conseguiu se por de pé. Sobre apenas dois. Afinal agora ela era uma mulher.

E passo ante passo, caminhou pelo quarto, e em direção ao espelho de corpo inteiro, no canto. E como mulher que agora era, não resistiu a se olhar, se medir.

Já não era nova, tinha mais de 3 meses de idade, quando a longevidade média da sua espécie é de 6 meses, para as fêmeas. Era, portanto, uma barata balzaquiana. Na verdade, agora uma mulher balzaquiana, com seus equivalentes trinta e poucos anos humanos.

Estava nua. Como nunca se sentiu antes. 

Sem a cobertura do exoesqueleto de quitina, parecia estar literalmente com as vísceras para fora. 

Depois do longo estranhamento com a nova condição, ficou se admirando detalhadamente como todas as mulheres fazem. Levantava e abaixava os braços, apalpava o corpo, as pernas, os seios (que diabos são essas coisas, para que servem, meu Deus?), virava de costas e procurava as asas ausentes. E esses pelos na cabeça, que só atrapalhavam. Cadê as minhas antenas?

Passou mais de quinze minutos se admirando no espelho e no fim das contas concluiu que talvez fosse uma mulher bonita. As carnes ainda rijas (para uma mulher – obviamente), e ela teve de concordar que a textura da pele era agradável ao toque.

Começou a gostar da ideia: era uma mulher. Humana.

Ia poder beijar de língua (agora tinha língua), namorar, transar, ter filhos, depois de uma gravidez intrauterina (nada mais de ovos, larvas, casulos), amamentar, criar. 

Faltava só um macho, digo, um marido.

Mas estranhamente, desde que acordou, uma música insistia em martelar em seus ouvidos: “Quem quer casar com a Dona Baratinha?”

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