Olhos (microcontos)

Era cego de nascença. Andava sozinho pelo deserto. Sabia se localizar pelo olfato, pelo vento, pelos sons, pelas pedras do chão (seguia descalço). Ia em busca da fonte sagrada de Agwanit. Sua água, segundo a lenda, curaria a cegueira. A localização era um mistério. Já há mais de dois meses, errava a esmo. As provisões acabando, mas ele não perdia a esperança. Um novo cheiro, um ruído, uma nova textura aos seus pés e acertava o passo na nova direção. Porque apesar do olfato, do tato, da audição, queria vê-la, sua amada.

Começo dos anos 2000. Trabalhava em uma multinacional. Mais de noventa mil funcionários no mundo. Mais de duzentos produtos no portfólio. De pasta de dente até mostarda de Dijon. E ele passava os dias em uma baia revestida de tecido azul. Um computador de mesa (só gerente para cima tinha notebook) e pilhas de relatórios lotavam o espaço. Chegava cedo, saia tarde, mas, ainda assim, a pilha de relatórios nunca diminuía. No horário do almoço, saia do prédio espelhado de 32 andares e ia para uma pequena praça escondida. Sentava sempre no mesmo banco e chorava, ininterruptamente, durante uma hora. Voltava com os olhos vermelhos.

Tinha um olho de vidro. Resultado de uma briga quando, moleque, ficava vadiando pelo porto. O gordo que tomava conta dos armazéns não perdoou o roubo que lhe fez perder o emprego. Na mesma noite, enfiou um canivete na sua córnea direita. Hoje até faz charme com os olhos de cores diferentes. O que enxerga é azul, o de vidro, mais esverdeado. Já inventou diferentes histórias. Perdeu na guerra, atingido por uma granada. Foi bicado por um corvo enquanto dormia nos campos da Escócia. Acidente de carro. Nunca contou a verdade para ninguém.  Nem para a mulher. Nem para o filho, de olhos verdes.

Ficou sabendo da história por um conhecido. Pagavam mais de cinco mil por uma córnea em bom estado. E ele sempre se orgulhou da visão perfeita. Se não pagasse o que devia ao despachante, sabia o que ia acontecer. Sua mãe, sua mulher e sua filha. Sabia que não devia ter se metido com o cara. Ele é o demônio, falara o gordo quando ele disse que precisava de dinheiro. Não faz isso não, disse. Mas o que está feito, está feito. E ele fez bom uso do dinheiro. Era hora de pagar. Olho por olho.

Tinha dado nome a ela: Verônica. Vero ícone. Imagem verdadeira. Ficava no mural em frente à sua mesa de trabalho. Ampliação grande, um pouco granulada, daquelas do tempo em que ainda se usava filme, não o resultado dessas câmeras digitais de hoje. Ela não olhava para a lente. Não mais que vinte anos, o olhar perdido no horizonte, talvez os olhos de ressaca da Capitu fossem desse jeito. O retrato, em plano médio, revelava um colo branquíssimo, nenhum colar, nenhum enfeite. Na orelha, um brinco em forma de gato. Vê-se um céu nublado, escuro, prenúncio de chuva. Uma beleza triste. Nunca mais conseguiu fazer outra foto assim.

Ele me encara. E vejo nos seus olhos amarelos o trágico destino da humanidade. Gatos enxergam muito bem no escuro.

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