O Exato Instante Em Que Você Se Torna Apenas Passado

leia e ouça: john cale || amsterdam

PASSADO

uma lata vazia

um lençol manchado

um letreiro de um filme

um enterro

um embrulho desfeito

uma foto amarelada

um papel rasgado

ela

ele

nós…

– E então? Ainda aqui?

A pergunta dele soou dolorida, quase sádica. Uma pergunta perdida em um mar de caos, desordem, dor e desespero. Uma pergunta difícil e direcionada a alguém incapaz de saber. Incapaz de responder. E perguntas assim não soam bem. Nunca. Definitivamente não soam como deveriam soar. São perguntas que machucam como lascas de pregos enferrujados ao rasgar a pele, são perguntas repletas de más intenções e com vontade de machucar. E, porra, entre pessoas que já foram as mais importantes da vida, uma para outra, nada teria o direito de ser tão dolorido assim. Nada.

E ela continuou deitada e mal levantou a cabeça. Seus cabelos longos e lindos, escuros como nanquim, pretos como a noite e descuidados como o seu estado de espírito tentavam, em vão, esconder as lágrimas nas quais os seus maravilhosos olhos azuis se afogavam naquele momento. E claro, a pior e mais nojenta coisa a fazer naquele exato instante era se deixar ver chorar por ele. Não. De forma alguma. Não podia deixar que ele a visse chorar. Se deixar ver por ele. Mas não havia como evitar. Mesmo deitada, a pergunta cruel e sem resposta continuava suspensa no ambiente tenso e denso do quarto, suspensa no ar como uma onomatopeia imaginária.

– E então? – ele insistiu impaciente, sabendo que estava sendo ainda mais cruel, ainda mais sádico, ainda mais letal.

Seu corpo cansado e dolorido despertou. Ela levantou-se e decidiu em ofendê-lo uma última vez, deixando, de propósito, de responder àquela maldita pergunta. Agora uma afirmação. Ficou apenas em silêncio. Ela calçou as suas botas velhas e rasgadas e nem se preocupou em ajeitar os cabelos arruinados. Acendeu um cigarro, exatamente por saber que ele detestava fumaça e pegou a velha mochila verde. Abriu com força o armário ao lado da cama, sem se importar com as dobradiças frouxas. Pegou apenas seu jeans preto e duas ou três de suas camisetas prediletas de bandas. Jogou tudo dentro da tal mochila verde sem o menor cuidado. Pegou seu pequeno estoque de erva e colocou em um dos bolsos da calça. Deixou o resto das suas roupas no armário como se fossem trapos, principalmente as lingeries que agora apenas lhe davam nojo. Muita repulsa. Olhou para ele com um ódio totalmente incompatível com o que já sentiu por ele. Olhou para aquele homem como se quisesse derretê-lo. Derretê-lo de forma lenta, apenas para que ele sentisse dor. Muita dor. Recolheu a meia dúzia de livros e quaisquer outras coisas que viu na hora, acomodou tudo socado na mesma mochila e, atrapalhada, mas decidida, saiu do quarto de forma rápida e firme.

Olhou para a sala uma última vez. Antes de abrir a porta para o hall de entrada, olhou para ele novamente. Não reconheceu aquele homem lindo parado em frente a porta do quarto em que já dividiram tantas coisas. Não reconheceu nada que pudesse lembrar os últimos anos. Nem uma sombra, um resquício de amor e gentileza, nada. Não reconheceu de onde poderia brotar tanta indiferença. Tanta vontade de ferir. Tanto ressentimento. Olhou com pena. Muita pena. Pena dela própria e de tudo terminar assim. E, assim que fechou a porta, caiu ajoelhada à frente do elevador e chorou com dor e desespero.

Chorou como poucas vezes chorou assim antes.

Chorou muito, por ter a exata noção daquele momento.

Chorou por ter percebido naquele exato instante, que se tornou apenas… passado. O passado na vida de alguém.

uma lata vazia

um lençol manchado

um letreiro de um filme

um enterro

um embrulho desfeito

uma foto amarelada

um papel rasgado

ela

ele

nós…

Photo by Kristina Tripkovic on Unplash

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