Conto noir

Finalmente tinha colocado o ponto final naquele conto policial que havia lhe consumido mais de duas semanas de trabalho árduo.

Encomenda de uma nova editora para uma coletânea com autores consagrados, pediam um conto “noir”, no clima dos romances de Chandler e Hammett.

Não foi fácil achar o tom, o cenário (Chicago ao invés de Los Angeles), criar os personagens – o seu detetive tinha um quê do Marlowe que ele demorou para conseguir eliminar – e finalmente deslanchar na história.

Estava pronto a mandar o texto final – que trazia assassinatos, traições, trapaças, descobertas inesperadas, reviravoltas e uma loira platinada – para a editora, quando o seu telefone toca. Estranho, pensa, afinal ninguém tem esse número.

Uma voz com sotaque americano sussurra – “Eu não estou morto, precisamos nos encontrar…” – e desliga antes que ele consiga falar qualquer coisa.

Trote ou coisa que o valha, pensou, e não deu mais atenção ao caso. Momentos depois, seu computador desliga inexplicavelmente.

Ao ligar novamente a máquina e resgatar o conto para ser enviado, outra surpresa: o arquivo estava vazio. Com seus parcos conhecimentos de informática, ainda tentou truques, macetes, procedimentos, tudo em vão.

Sorte que já tinha uma primeira versão impressa. Digitou novamente o conto, aproveitando para uma nova revisão, cortar os pronomes que sempre colocava em excesso, as vírgulas erradas, verificar a grafia dos nomes dos personagens – Harold Winter, James Caldwell, Leroy Montgomery, William Hanks (com dois eles), Guy Jones (seu protagonista), Ava Steiner (sua musa) e caçar erros de digitação.

Uma hora depois (o texto revisado e pronto para ser enviado) pisca a bandeirinha da sua caixa-postal com uma nova mensagem. Sem assunto. O remetente, Leroy M.

“Caro Sr. A,

Escrevo para dizer que não estou morto. Não morri com os tiros no beco escuro da Chicago como você descreveu. As seis balas que o assassino disparou em mim não atingiram nenhum órgão vital. Perdi muito sangue, é verdade, mas tive apenas um desmaio e uma diminuição drástica dos meus batimentos cardíacos, o que confundiu o legista preguiçoso – ele nem se preocupou em examinar meus sinais vitais. Acordei na cama fria do necrotério e tratei logo de fugir.

Depois de me recuperar em um esconderijo que nem você conhece, passei mais de uma semana procurando-o até encontrá-lo graças a um amigo que tenho no ramo editorial.

Sei que a minha morte era fundamental para o desenvolvimento de seu conto e para que seu protagonista descobrisse a identidade do criminoso. Por isso, não podia me furtar de alertá-lo do erro que você está cometendo.

Não foi o Stan que atirou em mim. Nem foi ele o culpado pela morte do pai de Ava. Aquela arma, a mesma que disparou em mim, a Smith-Wesson calibre 32 foi colocada no porta-malas do carro dele para incriminá-lo. Foi plantada pelo assassino.

Encontre-se comigo amanhã às três da tarde no café em frente ao seu prédio e eu revelarei a verdadeira identidade do facínora. Guy corre perigo, juntamente com sua amada. E só você pode impedir um novo crime.

Abraços calorosos do seu

Leroy M.

PS: Gostaria que você fosse mais exato em relação à minha altura. Tenho na verdade um metro e cinquenta e seis centímetros, e portanto não posso ser qualificado como quase anão. Ah, e não tenho mau-hálito, como você me descreveu. Queria muito que você corrigisse isso também.”

Ele releu várias vezes a correspondência, perplexo. Leu e releu também o conto. Era um conto inédito, não tinha comentado a história com ninguém. História aliás muito bem amarrada, com nenhuma ponta solta. A não ser essa que aparecia agora.

Três uísques depois, ainda não sabia o que fazer, só sabia que não podia faltar ao encontro de amanhã.

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