Desassunto

leia e ouça: bloc party || so here we are

Eles se conheceram quando ambos tinham quatorze anos. Quatorze. Estudaram na mesma classe do colégio, desde quando ela se mudou para a vizinhança. Sempre foram amigos. Desde o primeiro olhar, desde sempre. Desde a primeira vez em que trocaram olhares e riram. Os mais unidos. Como irmãos. Sempre pensaram que nada podia separá-los. Nada. Desejaram as mesmas coisas, gostaram das mesmas músicas, curtiram os mesmos filmes, descobriram as mesmas drogas, beberam as mesmas bebidas, detestaram suco de manga e alimentação saudável, ouviram bandas indie, desprezaram com vontade a virtuosidade do Rush, viajaram juntos e passaram horas e horas ao telefone, quando ainda se usava essa ferramenta apenas para ouvir a voz do outro. Experimentaram muitas coisas juntos. Ela queria tudo e ele também, mas ele tinha receio. Ela não e, ao seu lado, ele se tornava forte e capaz de conquistar o mundo e tê-lo devidamente acomodado sob seus pés. Ela, por sua vez, sentia a segurança no colo dele. O porto seguro. Junto não seriam capazes de serem derrotados nunca. Não mesmo. Sofrer? De forma alguma. Não mesmo. O curioso é que toda essa intimidade jamais resultou em namoro ou coisa que o valha. Jamais se beijaram ou ficaram. Amaram-se? Muito. E de uma forma única, linda, carinhosa e comovente, mas não eram namorados na acepção que vulgarmente se conhece do termo. Nunca foram, muito embora todos assim pensassem. Divertiam-se com tal situação. Divertiam-se e punham-se a rir sem parar quando o assunto surgia. Davam palpites um na vida sexual e sentimental do outro, nas roupas, nos cortes de cabelo, conselhos, enfim, tudo. E tudo sempre funcionou perfeitamente. Por longos anos.

Até que um dia tudo mudou.

Foi uma briga forte, cruel e maldosa. Culpa de algo que hoje eles preferem nem lembrar o que foi. Mas, no fundo, nunca esqueceram. Houve discussão e briga. Feias. Palavras ruins e cortantes foram ditas. Mágoas emergiram, verdades (ou mentiras que queriam manter escondidas) surgiram e tudo deu errado. Tudo. Por vários dias, se feriram mutuamente. Sérios. Cruéis. Dispararam vogais e sílabas ruins um contra o outro que jamais deveriam ter sido ditas. Então, se calaram e nunca mais voltaram a falar. Nunca mais, desde então. Ao menos até aquela tarde.

Muitos e muitos anos depois.

Filme. Foi como um filme. Um romance bobalhão que passa nas sessões da tarde na TV. Um esbarrão descuidado e, pronto, lá estavam eles novamente, frente a frente, olhando um para o outro. O brilho de alegria no olhar desarmado de ambos foi um lampejo sincero que durou pouco mais de alguns segundos. Intensidade absurda, feroz e veloz. Como no início. No inicio de tudo. Logo, porém, a fagulha morreu e tudo voltou ao que era no momento zero da discussão, tempos e tempos atrás. Sem jeito, ele perguntou como ela estava. Ela respondeu que estava bem. Usou o mesmo tom que ele, desconfortável. Ele tentou sorrir e após um hiato, comentou brevemente sobre como estava quente naquela tarde. Ela resmungou qualquer coisa sobre realmente estar um calor muito, muito forte. Pararam de falar e se encararam. Ficaram observando um ao outro por instantes. Breves ou não, ninguém nunca vai saber, mas instantes intensos. Tristes. Ela então desviou o olhar e despediu-se com um frio e distante aceno com a cabeça e um “Bem, a gente se vê por aí”. Rápida, virou e pôs-se a caminhar acelerada para o outro lado da rua. Ele virou e seguiu o seu próprio caminho na mesma calçada em que estava. Nenhum deles olhou para trás. Nenhum. Já próxima à esquina e com as lágrimas começando a escorrer pelo canto dos olhos ela pensou – Deus… comentários sobre o clima? A que ponto, caralho, a que ponto nós chegamos? – e pôs-se a andar ainda mais rápido, sob o sol escaldante daquela tarde excepcionalmente tão quente. Tão quente. Tão quente e inesperadamente tão gelada e fria.

Photo by Benjamin Earwicker from FreeImages

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