Papel Molhado

leia e ouça: david bowie || teenage wildlife

– Você vai, Clara? – ele perguntou.
– Talvez. E você? – ela devolveu seca, não querendo parecer ansiosa.
– Não sei. Gosto da Lu e tals, mas ainda não sei.
– Vá! – ela pediu – Talvez seja bom.
– Devo? Você vai com a Estela? – ele perguntou.
Clara ficou em silêncio.
Ele continuou – Bem, então tá. Se eu for você vai me ver. Vou pensar.
– Ok. Besos – ela respondeu e desligou o telefone.

A festa rolou animada no Clube Varsóvia. Pessoas de todo o tipo, sabores, cores, tamanhos e desejos comemoraram, beberam e celebraram. Todos pelo aniversário da Lu. Ela? Ela aguardou por ele. Ele? Não chegou. Ela bebeu qualquer coisa. Ele não chegou. Ela fumou cigarros e whatever. Ele? Claro que não.  Simplesmente não chegou. Ao final da noite, ela estava exausta. Bêbada e cansada. Esgotada por esperar demais as pessoas erradas. Sempre assim. Cansada de errar. Errar tão feio. Sempre. E então, ela decidiu ir embora do Clube Varsóvia. E lá fora, a chuva estava infernal. Prudente, ainda que chapada, pediu a best friend ever  Estela para levá-la para casa e depois devolver o carro. Antes de entrar no veículo, toda molhada, ela percebeu um papel cinzento e barato dissolvendo no pára-brisa. Arrancou o papel, nervosa, e já dentro do carro o amassou e jogou no chão sem sequer olhar do que se tratava. Resmungou para Estela – Guarda imbecil. Só um filho da puta para multar com uma chuva destas. E foram embora. Ao chegarem na casa de Clara, trôpega, Estela a ajudou e a colocou direto na cama. Cama, aliás, que se transformou em um verdadeiro troféu, uma verdadeira medalha de honra ao mérito aos campeões de erros de amor. Clara apagou imediatamente, sem sequer tirar a sua saia rodada e suas meias arrastão. No fundo, desmaiou para esquecer a certeza que tinha de que jamais o veria de novo. Estela a admirou ali deitada por alguns instantes. Tirou com carinho o coturno molhado de Clara e a cobriu cuidadosamente. Secou a testa dela e deixou um beijo carinhoso com seus lábios suaves para não acordá-la. Ligou baixinho o som com um álbum antigo do Bowie. Saiu devagar, deixando apenas a luz do banheiro acesa e algum incenso para aromatizar o ambiente. Lá embaixo, dentro do carro, Estela foi direta para o chão do carro e pegou o papel já quase destroçado que havia sido desprezado ali. Tremeu ao reconhecer a letra naquele papel. A letra dele. A mensagem bastante direta: “Oi. Eu vim. Vim mesmo e por isso provo com este bilhete à moda antiga e não uma mensagem de whatsapp. Mas pensei muito e decidi não entrar. Prefiro você sozinha e não perto da Estela. Você sabe. Quero você. Muito. Espero que ainda possa me desculpar. Enfim, pensa no que quer. Me liga amanhã. Se me ligar, falamos. Do contrário, respeito e lamento tudo o que aconteceu com a gente e espero que talvez possamos nos falar quando eu voltar um dia (ou você me visita né, afinal Sevilha é logo ali, né?) Beijos e cuide-se”.
E após ler o bilhete, Estela baixou o olhar, enxugou as lágrimas e apertou e amassou com força o tal bilhete. Muita força. Instantes depois, lá estava ela parada a observar o papel cinzento queimando, enquanto tragava lentamente o milionésimo cigarro mentolado daquela madrugada. Lá em cima, em seu apartamento, Clara apenas dormia ao som de um Bowie que ela sequer estava escutando. A chuva caía sem parar e agora não mais caía pela força da natureza. As gotas eram agora apenas as lágrimas de anjos descuidados. Cupidos ainda desacostumados a desencontros de amor. Insensíveis e impotentes e, principalmente, desacostumados a desencontros de amor.

Photo by Werdok Werdokarian from FreeImages

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