Entre livros

Fica em uma rua secundária, meio escondida. Livros antigos, raros, incunábulos, gravuras, obras de arte, antiguidades. Loja e um mezanino, atulhados: uma mistura de sebo com antiquário.

Na vitrine, igualmente lotada, além de livros, objetos, entre eles um belíssimo abajur antigo, dividem espaço com uma cesta de vime. Dentro, uma gata. Vira-lata. Mas com uma coleira de pingente. Ela é grande, tricolor. Laranja, preto e branco. Toda manchada. Bonita. Imponente.

A verdadeira dona e senhora do local. 24 horas por dia entre histórias, personagens, passados.

Durante os dias, finge dormir na cesta, mas de verdade, está atenta a todo e qualquer cliente que entre pelas portas de vidro. Colombina é a guardiã de tudo e de todos. Não é qualquer um que vai levar a segunda edição de Dom Quixote. Muito menos folhear aquelas edições italianas do século XIX.

Dos turistas ela não gosta. Sabe que eles só estão entrando pelo pitoresco do local, não pelos seus tesouros. E ai daquele que tentar afagá-la. Solta um rosnado agudo que intimida quem chegar mais perto de sua cesta.

Mas sabe reconhecer aqueles que gostam de livros. Estudantes, escritores, bibliófilos. Estes tem um brilho diferente no olhar quando entram na loja. Uma reverência que ela percebe de cara. Silenciosos, ficam horas percorrendo as diferentes estantes, conferindo as lombadas.

A primeira vez que pus os pés lá, não dei pela gata. Estava atrás de um livro raro, essencial para um ensaio que não conseguia terminar. Não encontrei o que queria, mas saí de lá com uma sacola cheia. Só na porta eu percebi a cesta de vime na vitrine. Mas prometia chover e fui embora correndo.

Voltei outras vezes. A cada nova visita, percebia mais os olhos dela me espreitando. Foi só na quarta ou quinta vez que parei na sua frente. O dono já havia me alertado para tomar cuidado com suas garras, mas teimoso encarei a bicha. Parecia que ela estava me avaliando, pela pilha que tinha selecionado. Não me arrisquei a passar a mão nela. Ela também não me unhou.

Meses depois entrei na livraria novamente. O dono não estava, apenas a moça da faxina, que fazia as vezes de balconista. Fui direto para estante dos italianos. Estava tão entretido com algumas novas aquisições que mal percebi um roçar na parte de trás das minhas pernas.

Hoje, sou eu quem está atrás do balcão. Comprei a livraria com todos os livros e objetos. Só impus uma condição ao antigo proprietário: a Columbina ficou.

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