Zé Keti Song

leia e ouça: zezé gonzaga || sorri

Ele levou as mãos à cabeça e parou, por um instante, de cantarolar o antigo samba de Zé Keti que insistia em tocar em looping na sua cabeça. Ele ainda estava com todo aquele eco nos ouvidos, em virtude do barulho e da agitação daquela multidão toda celebrando a noite anterior. A lembrança do ruído o deixou exausto, somada, claro, a todos os excessos praticados em uma noite só. Uma noite só? Não. Claro que não. Excessos praticados ao longo dos adoráveis últimos dias. Abraços, sambas, reggaes, axés, afoxés, marchinhas antigas, marchinhas modernas, maquiagem neon, frevos, patuás, colares havaianos, marabus coloridos, confetes arremessados, serpentinas voadoras, suores transferidos entre corpos e mais corpos, aromas de cervejas baratas ou não, cigarros, perfumes, máscaras, chicotinhos, fantasias, perucas, vestidos, bermudas, enfim, tudo que foi experimentado nos últimos quatro dias. Principalmente o beijo. Aquele beijo. O beijo entre os dois e tudo o que houve depois. E, assim, ele estava cansado. Muito cansado, porém realizado. De certa forma, realizado. O sol estava quase nascendo e todos da casa estavam dormindo, esgotados. Inclusive ela, “desmaiada” de sono e estirada de forma descuidada naquela cadeira de piscina, na área coberta do quintal, apenas envolta em uma saída de praia qualquer. Ela dormia. Ele não. Ele estava lá, acordado, com os pés enfiados na água gelada da piscina, pensando e pensando e pensando. Desejo de o sol levar horas para nascer. Desejo de que a bonita pintura do sol nascendo ao fundo no horizonte durasse por horas e horas. Durasse o suficiente para ele que pudesse continuar a sorrir. Sorrir. Sorrir ainda mais. Mas ele sabia que isso não iria acontecer. O dia estava nascendo e as pessoas, independente da sua vontade, iriam acordar. Em breve, todos estariam despertos e prontos para deixarem aquele lugar, de volta para a rotina das suas vidas, ordinárias ou não. Principalmente ela. Ela. Antes disso, ele lembrou-se com carinho tudo o que aconteceu naquela madrugada. Lembrou-se do beijo, do toque, dos olhares e da improvável declaração de amor que fez. Uma declaração guardada por tanto tempo e só agora, revelada de forma descuidada em uma madrugada de carnaval. Enfim, assim foi. E o dia estava nascendo e ela iria acordar. E ele sabia que, assim, tudo voltaria ao normal. Ao antes. Arroubos de carnaval e ele, consciente, não estava disposto a lamentar o que aconteceu. Ele já sabia o que viria pela frente e não havia mais como se arrepender. O mais importante foi que aconteceu. Se é que realmente aconteceu – ele pensou, enquanto tirava toda a sua roupa para jogar-se naquela piscina de água gelada, ainda não aquecida pelo sol que insistia em nascer naquela manhã de Quarta-Feira de Cinzas. Cantarolou, mais uma vez e quase sem querer, o antigo samba de Zé Keti que insistia em assombrá-lo e mergulhou. E com a morte da madrugada, o que a lua testemunhou nem o sol podia apagar da sua memória. Ainda bem. Ainda bem.

Sorri (Zé Ketti)

Sorri

Depois do beijo, sorri

Depois do abraço, parti

Marcamos um novo encontro

Tu não vieste

Fiquei triste

…”

Photo by Stephanie Berghaeuser from FreeImages

Zezé Gonzaga || Sorri (de Zé Keti) do álbum Canção do Amor Distante (1968)

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