As pedras

Vivia de contar as pedras do piso do corredor lateral do prédio. Um edifício velho, década de 1950, já mostrando claros sinais de decadência. Pastilhas faltando na fachada, o elevador sempre quebrado.

Mas para ela, que não saia mais do quarto, não tinha importância. 

Há mais de três anos vivia entre aquelas quatro paredes, nem ao banheiro ia mais – para isso a comadre embaixo da cama. Comia lá – sopa invariavelmente – preparada pela velha empregada. A mesma dos tempos de glória.

Ainda bebia às vezes: algumas garrafas escondidas na cômoda – uísque, aquelas garrafas curtas e bojudas de Old Parr, era isso que gostava de beber. 

Abandonara os livros, a música. Mesmo a televisão, pouco ligava, às vezes apenas no mudo, imagens que nada lhe diziam. Nunca teve computador. Muito menos telefone celular.

Da janela, via o corredor de ponta a ponta. O piso, de pedras gastas, irregulares, entre o cinza sujo e o marrom. Conhecia cada uma delas. Para cada uma, visualizava um amante do passado.

E foram muitos. 

Aquela pedra mais escura, Renato, fazendeiro da Bahia que se encantou com a jovem garçonete do salão da casa de shows. Tinha pouco mais que dezesseis anos, mas já sabia da vida. Ele, o dobro da sua idade. Não foi seu primeiro, mas era o primeiro rico – muito rico: com ele, tomou champanhe, viajou para o exterior, usou as primeiras jóias. E devasso: conheceu o prazer e aprendeu muitos truques na cama. Mas era casado e nunca pensou em largar a esposa.

Outra pedra, outro amante. Aquela cinza, pontiaguda, Olavo. Filho de um industrial, esse aprendeu na cama com ela. Em compensação, lhe ensinou sobre talheres, etiqueta, modos, protocolos, salamaleques. Não durou.

Aquela bem sujinha é o Armando, artista da noite. Amante esporádico. Virava o caneco. Com ele, aprendeu a beber, conheceu maconha, cocaína e descobriu que não gostava de apanhar. Depois dele, nenhum outro homem lhe levantara a mão. Mas transava bem o desgraçado. Sabia pegar.

Perto do canto, aquela pedra rachada era Cláudio. Viveram bons momentos juntos. Da alta sociedade, ela apareceu em colunas sociais. Ficou mais bonita. Até fotos de modelo fez. Desfilava vestidos de luxo, cabelos, poses. Mas ele era bissexual. No fim se decidiu pelo amigo de infância. Ela partiu para novas pedras.

Conheceu a turma do teatro. Se enturmou. Várias pedras. Inclusive mulheres. Turma do teatro, você sabe. Pedras fugazes, reservou aquelas perto da torneira – molhadas brilham como eles brilhavam no Arena, no TBC, no Municipal.

Mais turmas – jornalistas – pedras envelhecidas, algumas amargas. E o pessoal da televisão. 

Para aquele galã de telenovelas, reservou uma das melhores pedras do corredor. E que pedra. Era tudo o que as revistas da época prometiam e muito mais. Perseguidos por fotógrafos, viajaram o mundo: Paris, Grécia, a costa italiana. Ele morreu num acidente de carro. Ela buscou consolo em outra pedra. E outra. 

Casou, separou, casou de novo. Mas nunca teve filhos. 

Viúva, ainda buscava pedras novas. Sexo era seu alimento. Sempre gostou de cuidado, proteção. Homens mais novos, quase meninos. Olha para eles naquele trecho do corredor onde o condomínio teve que abrir um buraco para tubulação de gás. 

Com a doença, veio o abandono, a solidão. Sobraram as pedras. 

Hoje ela tomou uma grande dose de uísque. Acabou a última garrafa. Decidiu juntar-se aos amantes. Todos eles. Abriu com dificuldade a janela.

Semanas depois, você ainda percebe a mancha avermelhada nas pedras do corredor.

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