Quando O Verde Não Aclara

leia e ouça: boy with apple || green eyes

– Lá vai – ela gritou enquanto arremessava a garrafa no canteiro, meio alta, meio zonza, toda alegre.
Ele apenas sorriu.
– Mais uma, yeaaaahhh – ela gritou de novo, antes de arremessar a segunda garrafa long neck de cerveja no mesmo canteiro.
– Deste jeito os vizinhos vão reclamar, chamar a polícia, nos bater, sei lá – ele disse. Disse apenas para registrar, pois, na verdade, ele pouco se importava com as consequências daquilo tudo – Ah, e não esquece que vai recolher toda essa bagunça depois – ele completou em tom de advertência.
Ela olhou para ele de uma forma divertida e adoravelmente negligente. A mesma forma divertida e negligente que ele estava tão acostumado a curtir ao longo daquela vida de amizade e delírio.
– Quer saber? Quero que os vizinhos se fodam – gritou e caiu na gargalhada – Olhe para nós. Olhe. Altos como qualquer coisa, hein? Bêbados e sentados numa quebradinha de uma vila escura, enquanto todos estão lá dentro bebendo, dançando, fumando, amando. Nós aqui, juntos, enquanto a festa come solta na casinha de número sete.
– Seis – ele corrigiu – A casa do Edu é a número seis.
Ela gargalhou e disse, rápida – Melhor parar de jogar garrafas em canteiros, né? Os cacos podem nos machucar ou ferrar alguém.
Ele concordou com a cabeça, certo de que podia dar confusão todas aquelas long necks despedaçadas e logo começou a recolher toda a bagunça.
Ela aquietou – A noite está tão bonita hoje – disse, sentando mais perto dele.
– Tem razão.
– Podia ser sempre assim. 

– Podia – ele concordou e emendou – Como é possível ter tantas estrelas acima de nós, mesmo numa cidade tão poluída como esta? 

Ela suspirou e soltou devagar, quase em sussurro – Milagres. Milagres de uma noite de verão. Apenas isso. Milagres de uma noite de verão.
Ele aproveitou e ajeitou o seu ombro junto aos cabelos longos e lindos dela. Sentiu, feliz, aquele perfume invadir o seu nariz.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. O tempo suficiente para sentir o céu se mover. Ficaram em silêncio, tendo por testemunha apenas a viela escura da vila e os cacos de garrafas devidamente recolhidos. Ao fundo, a trilha sonora adoravelmente animada da festa do Edu.
De repente, ele quebrou o silêncio e disse de forma doce e suave – Você acredita mesmo em milagres de noites de verão? Ou apenas está alta?
Ela demorou para responder, como se não quisesse sair de uma espécie de transe.
– Acredita? – ele insistiu.
– Talvez. Talvez sim, talvez não. Depende.
– Do quê? – ele perguntou, curioso.
Ela levantou a cabeça e olhou para ele fixamente, sem nada dizer, o encarando com seus grandes olhos verdes.
Ele tentou desviar o olhar, porém não conseguiu. Ele nunca conseguia quando se tratava dela e daqueles grandes olhos verdes.
– O que foi? – ele perguntou, ansioso com a forma com que ela o olhou.
– Depende dos efeitos que produzem certos olhos verdes – ela disse, aproximando seus lábios dos dele, para um beijo de cinema, um beijo de desejo, um beijo há tanto contido. Um beijo simplesmente maravilhoso.
O mundo parou naquele instante.
Ao chegar em casa e antes de deitar, já alta madrugada e sozinho, ele apenas fez uma prece silenciosa – Deus, faça com que nada mude. Por favor – suspirou e desabou em lágrimas.



TANTOS anos passados.

Na fila do caixa do Café da Esquina, ele sentiu um toque em seu ombro. Um toque respeitoso, um toque suave, um toque breve.
Ao virar, mal acreditou.
Ela.

Aqueles olhos verdes.
– Você? Não creio – ele disse. Surpreso e encantado.
Ela sorriu e respondeu – Olá, querido. Que coisa boa te ver – disse, abraçando-o de um jeito incrivelmente adolescente, incrivelmente familiar. Mais do mesmo de sempre.
– Como você está? – ele perguntou.
– Bem. Estou bem. Você também, não? Bonitão, as usual, mesmo ainda fumando estes horríveis cigarros de menta – sorriu.
Ele deu risada antes de responder – Velhos hábitos. Velhos hábitos.
– Que ótimo te ver.
– Eu também acho.
– Tanta coisa não? – ele disse – Tem um tempinho? – perguntou.
Ela olhou para o relógio – Sim. Cinco minutos, na verdade. Tenho uma reunião daqui a pouco e você sabe como o trânsito desta cidade é caótico, não?
Ele concordou com a cabeça, oferecendo uma cadeira para ela, ao lado da janela. Pediu dois capuccinos e começaram a falar.

Falar, falar, falar, falar e falar.
O que aconteceu depois?
Conversaram por mais de cinco minutos. Óbvio.
Ela atrasou para a reunião. Ele atrasou para voltar ao trabalho. Ela morava em Berlim. Ele morava em São Paulo. Ela, divorciada. Ele, solteiro. Ela, sem filhos. Ele, também. Ela, feliz. Ele, talvez. Ela, ainda com alguns sonhos, delírios e vontades. Ele, nem tanto. Ela, adorável. Ele, não muito. Ela, mudada. Ele, também. Trocaram e-mails. Trocaram celulares. Endereços. E, foram embora. Foram embora, cada um para um destino diferente. Cada um para o seu próprio destino.
Se encontraram novamente?
Não.

Simplesmente não.

Nunca mais.
E, no seu caminho de volta para qualquer lugar, ele apenas pensou uma última vez – “Meu Deus, aqueles olhos verdes continuam iguais. Iguais”.

Photo: n/d

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