O ABISMO

O desafio estava lá. O abismo. Aquela barreira intransponível. Quilômetros e quilômetros de extensão. E você tinha que cruzá-lo. Era uma prova de fogo. De coragem. Uma verdadeira iniciação. Um rito de passagem.

Poucos de nós conseguiram. Muitos ficaram pelo caminho. A sensação de estar sendo avaliado pelos seus pares. E o abismo era só a primeira parte da prova.

Como fazer? Muitas histórias. Estratégias divididas com antecedência. Experiências trocadas. Lendas de pouca ou nenhuma utilidade. Quando chega a sua hora, é só sua. O seu momento.

É você que está encarando o vazio. São as suas costas que começam a suar molhando a camisa (nova, de festa – própria para o momento) de alto a baixo. É o seu estômago que se contorce prevendo o pior. Sua boca seca. Falta a coragem de dar o primeiro passo.

Antes você bebeu, vários copos de cerveja (o único álcool da casa), tentou se libertar dos seus demônios. Antes você mentiu, se vangloriou entre os iguais. Se fez de forte. Enfim, partiu para o ataque. Se tinha que ser, que fosse.

No começo da travessia pensou no seu pai. E no pai do seu pai. Até o pai de todos eles. Todos passaram. E o abismo era só a primeira parte da prova.

Pé ante pé. Com medo de cair. Com medo de tremer. Com medo de falhar.

Passo a passo, você continua a jornada.

Muitos ficaram pelo caminho. Ao seu lado, vê um desistir. Nos olhos do desgraçado infeliz, a vergonha estampada. A consciência da queda. A humilhação pública. Só resta o tempo, para apagar o fracasso da memória coletiva e dar a esse triste competidor uma nova chance. A próxima festa.

Você chega finalmente ao outro lado. Ao novo desafio. A segunda parte. O medo, misturado com uma ligeira sensação de vitória por ter chegado até aqui, faz bater o seu coração de forma assustadora. Você acha que ele vai sair pela boca.

Mais suor, agora acompanhado da ligeira tremedeira que você tenta desesperadamente esconder. Esconder delas.

Porque são elas que estão lá. Elas, esperando tais quais esfinges – decifra-me ou devoro-te. Elas, as musas, as sereias, as deusas, as fadas, as bruxas, as mães, as putas, as feras. As desconhecidas, misteriosas, enigmáticas, poderosas, insolentes.

E você, fraco, inseguro, com medo, mal consegue encarar o segundo desafio, a segunda provação, antes da recompensa que já nem mais acredita que virá no final.

O vital agora é encarar, olhar nos olhos, extrair um sinal, aquele sinal de aprovação. Como é? Me digam por favor! Olha rápido, baixa os olhos, vira para o outro lado, busca um novo brilho. Encontra olhos virados, olhos negados, olhares de esguelha, de desprezo, despeito, desconfiança. Tenta de novo, acha uma esperança, quer acreditar e finalmente toma iniciativa.

Fixa o olhar. E esboça um sorriso. Esse é o segundo movimento.

Quem diz que o sorriso sai de primeira? Ele demora a tomar forma, antes uma careta do que uma cara sorridente, até que finalmente completo, ele compõe, junto com o olhar e alguns trejeitos corporais, a verdadeira armadura, a couraça com qual se arma, para enfim tomar a iniciativa de se aproximar, ainda que titubeante. Frouxo.

Com o segundo passo dado, resta agora a expectativa da reação da fera-bela – ela que decide. Ela tem o poder. E tem os peitos, a boca, a bunda, e tem você na mão.

Hora da verdade, sua hora, você transpira, você treme, você reza, você torce, você tenso, você pensa, repensa, se arrepende, e ela só tem uma coisa na cabeça: – É, podia ser mais encorpado, como os meninos do colegial – dançar música lenta com magrelo é duro – mas fazer o quê!?

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