Brigadeiros, Vogais E Hiatos

leia e ouça: vitamin string quartet performs the smiths || heaven knows I’m miserable now

Brigadeiro Tradicional 

Ingredientes: 

1 lata leite condensado 

1 colher de margarina 

2 colheres de chocolate em pó 

Modo de preparo: 

Misturar tudo, levar ao fogo e ir mexendo até aparecer o fundo da panela. Pronto! 

Depois de frio, é só enrolar e passar no chocolate granulado. 

… 

Ela tinha duas paixões na vida: os brigadeiros e os seus contos. Mais do que qualquer outra coisa, comer doces e escrever era o que realmente a fazia feliz, satisfeita, alegre e enfim, viva, numa espécie de delicioso alive and kicking particular.  

Os brigadeiros ela amava desde que se entendia por gente. De qualquer tipo ou forma, cor ou recheio. Tais doces serviam como uma espécie de inspiração ao que ela escrevia. Preparava os seus próprios, conforme receita de Letícia, amiga do colégio, cuja mãe trabalhava em uma confeitaria perto de onde estudavam. Era uma fórmula simples. Fabulosa. Até ela, uma completa nula na arte culinária, era capaz de prepará-los, sem maiores dificuldades. 

Os contos, bem, os contos eram o seu mundo, a sua real vida, a sua forma mais peculiar de expressão. Não conseguia demonstrar os seus sentimentos de forma tão segura que não apenas escrevendo. Talvez essa fosse a principal razão dos seus incontáveis e retumbantes fracassos amorosos. Um após o outro. Um após o outro. Desencontros de gênios, ela tentava justificar. Ela sempre pensava como curioso era ninguém ter uma fórmula para sexo e relacionamentos, assim como existem fórmulas e mais fórmulas para se preparar brigadeiros, por exemplo. 

E era sempre assim. Sempre assim, até aquele dia.

– Está me convidando? – ele perguntou surpreso, na sempre lotada cantina da faculdade. 

– Ora, vamos. Eu tenho dois ingressos e você não me é tão desconhecido assim. Estudamos na mesma turma. Sei até o seu nome – ela brincou e prosseguiu – Sei que adora café com creme e sei que esta música ao fundo é de uma das suas bandas prediletas. É um bom começo, não é? – ela perguntou ainda incrédula com a sua inédita iniciativa. 

– Tem razão. Sobram bons motivos – respondeu com um sorriso. 

– Na pior das hipóteses – ela completou – se o show não for bom, podemos tomar um gim tônica depois. Nem tudo pode ser perdido.

Ele sorriu novamente e disse – Está bem. Mais do que obrigado. Nos encontramos então. Lugar? 

– Tem uma padaria na esquina do Clube e podemos nos encontrar lá meia hora antes do show, que tal? – ela sugeriu, torcendo para que ele não percebesse o nada ligeiro tremor no canto de sua boca. 

– Certíssimo – ele concordou. 

– Perfeito. A gente se vê, então. 

– Até mais. 

Despediram-se com um leve beijo no rosto. 

Quando ele não estava mais ao alcance do seu olhar ela quase gritou como uma adolescente. Estava absolutamente feliz por ter, depois de um milhão de planejamentos, tido a coragem de se aproximar e convidá-lo sem parecer muito idiota (não??). 

E assim foi.

Meia hora antes do show, lá estava ela sentada junto ao balcão daquela apertada padaria. Ela estava linda, maquiada e com os cabelos levemente desarrumados, fumando um cigarro após o outro e tomando goles descompassados de uma cerveja barata qualquer. Sentia-se feliz. Apenas muito feliz.

Só que nem sempre é assim ou, ao contrário, SEMPRE é assim.

Ele não veio. 

Dez, vinte, vinte e cinco, trinta, quarenta, cinquenta, oitenta minutos se passaram e ele, simplesmente… não veio. 

A padaria já estava quase vazia. Todas as poucas pessoas já haviam entrado no show que, a esta altura, já deveria estar na sua primeira metade. Ela pagou pelas cervejas e entrou direto no primeiro táxi que encontrou. Riu como uma insana, apesar dos olhos molhados, quando percebeu que o taxista estava sintonizado em uma rádio daquelas que só tocam flashbacks desnecessários. Amava aquela canção e achou a situação tão inimaginável que se pôs a rir e a rir e a rir. In my life, why do I give valuable time, to people who don´t care if I live or die…  

Assim que entrou em casa jogou as chaves na mesinha da sala e a bolsa vermelha no sofá e foi direto para a cozinha. Ela já sabia que iria escrever muito durante a noite. Muito mesmo. Não quis saber de uma gota de álcool. Pegou vários ingredientes. Preferiu ficar em silêncio o resto da madrugada diante da tela azulada do seu laptop, escrevendo e se inspirando, com seus brigadeiros e seus contos. Somente com seus brigadeiros, seus contos, suas vogais, suas consoantes e, principalmente, os seus hiatos. E, ainda, vez ou outra, apenas cantarolando….In my life, why do I give valuable time, to people who don´t care if I live or die…  

Ingredientes

1 lata de leite condensado

3 colheres (sopa) de chocolate em pó

1 colher (sopa) de manteiga

1 xícara (chá) de chocolate granulado

Modo de preparo:

Em uma panela, coloque o leite condensado com o chocolate em pó e a manteiga.

Misture bem e leve ao fogo baixo, mexendo sempre até desprender do fundo da panela.

Retire do fogo, passe para um prato untado com manteiga e deixe esfriar.

Com as mãos untadas, enrole em bolinhas e passe-as no granulado. Sirva em forminhas de papel.

Photo: n/d

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