Teatro de sombras

Abrem-se as cortinas

De suas mãos saíam bichos: coelhos, macacos, cisnes, pombas. Saíam também mulheres, flores, navios, aviões.

Ele era um artista de teatro de sombras.

No seu mundo bidimensional cabia tudo: poesia, humor, drama, aventura, romance. Mas no mundo real, fora do palco, de suas luzes e sombras, ele sumia. Nem foto dele no cartaz do teatro tinha. Ninguém o conhecia.

Tímido, falar para ele era um desafio. Sem as suas mãos e suas sombras – suas muletas, se sentia um aleijado. Meio gago, sabia que era feio. A verdade é que nunca tivera uma vida social. Nunca fora à escola. Nunca tinha vivido um amor: se declarar a uma mulher, nem pensar. Vivia um celibato forçado, uma vida restrita ao seu teatro, se aprimorando na sua arte. Nas sombras.

Ocupava o lugar que já fora de seu pai. Sua mãe morrera quando ele era praticamente bebê e, da convivência forçada, cedo aprendera o ofício com o velho, mas o tempo, a prática e seu talento natural fizeram dele um mestre. O aprendiz melhor que o professor.

Com a morte do pai, agora era ele o verdadeiro mestre das sombras.

Mas depois de tantos anos, quase quarenta, sentia falta do mundo real, de uma vida tridimensional. Sair da sombra e brilhar por inteiro, não como reflexo. Sentia falta dos outros. E principalmente, de uma mulher ao seu lado.

Primeiro ato

Sábado era dia de espetáculo no parque de diversões itinerante.

As cortinas se abriam de meia em meia hora. Mas a tenda-teatro onde ele apresentava seu show só começava a encher mesmo a partir das cinco da tarde. O auge era a sessão das nove. A última.

Lotado, o local explodia em palmas ao final do espetáculo.

Ele nunca ia à frente do palco para receber a ovação.

Quando a luz acendia, ficava nas sombras, escondia-se num canto da coxia, espreitando a plateia.

A casa estava ainda mais cheia. Sábado de tempo bom, calor, o parque lotado, as pessoas aproveitavam todas as atrações.  E o Fantástico Teatro de Sombras de Dom Ramon teve uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

Homens, mulheres, famílias inteiras, crianças lambuzadas, segurando algodões-doces meio comidos, todos de pé, aplaudindo ao final do show que encantava multidões há mais de trinta e dois anos. De pai para filho.

Entre a plateia que espreitava, uma mulher se destacou na primeira fila. Não era especialmente bonita, mas tinha uma graça que chamou sua atenção. Um brilho nos olhos, castanhos, e o sorriso discreto, enquanto batia tímidas palmas para o show terminado.

Estava acompanhada de outra mulher, mais velha, talvez a tia.

Não conseguia tirar os olhos dela. Os outros da plateia começavam a sair, mas as duas permaneciam. Ela com seus olhos brilhando, ainda fixos no palco.

Foi só quando o espaço ficou quase vazio que as duas saíram, silenciosas, a tia (?) puxando-a pelos braços.

Durante a semana seguinte, não conseguia se concentrar nos ensaios para o show do próximo final de semana. O parque ficaria mais um mês na cidade e ele precisava desenvolver um número novo.

O show normalmente começava com animais, o coelho, depois o cisne na água, o cavalo, todos com uma graça e uma naturalidade que só ele conseguia extrair das mãos, dos dedos, dos braços que pareciam adquirir vida própria.

Depois a mão do bebê na mão da mãe, momento em que a plateia se emocionava. Aí surgia o casal se beijando, o macaco, o crocodilo, o caramujo, a tartaruga, figuras clássicas.

Ainda os cachorros, primeiro o pastor alemão, depois o buldogue, a esperada briga entre os dois. O cowboy e o índio, depois mais uma série de bichos: papagaio, elefante, o canário, a sua pomba, incomparável. Por fim, o gato.

Mas agora precisava de algo novo. Inédito. Há tempos planejava fazer um cantor, aproveitar alguma música famosa e dar mais vida ao espetáculo.

A inspiração não vinha, ele continuava com a mulher na cabeça. Como seria sua voz, qual o seu nome? Seria um cantor de ópera? Um cantor de jazz?

Foi só na quinta-feira que conseguiu dar vida ao personagem: Louis Armstrong e a sua clássica What a Wonderful World. Uma música emocionante que poderia dar o tom do novo espetáculo.

Pensou as seqüências, as transições. Mas não mostrou seu show novo para ninguém do parque. Seria uma surpresa para todos, inclusive para Fitz, proprietário e mestre-de-cerimônias.

Passou a sexta ensaiando o espetáculo. Afinando as entradas. Acertando os tempos. Mais de quinze horas seguidas, a portas fechadas. Sozinho. Não parou nem para comer. Saiu exaurido, mas finalmente satisfeito. Perfeccionista, se ateve aos mínimos detalhes.

Dormiu como criança. Acordou tarde (para os padrões do parque de diversões), coisa rara. Era sempre um dos primeiros de pé.

Demorou arrumando suas luzes. Deixou tudo pronto e foi para o camarim. Foi quando a ansiedade bateu. Não pelo show em si – confiava no novo número, mas pela dúvida se ela, sua mulher desconhecida, voltaria para assisti-lo mais uma vez.

Sabia que a cidade era pequena, provavelmente o parque era a principal diversão – o normal seria que as pessoas voltassem. Mas e ela? A veria de novo?

Os primeiros espetáculos foram bons. Não espetaculares, mas bons. Demorou uns segundos a mais na entrada da música, mas o público não percebeu e aplaudiu de pé. A sala não lotou até a sessão das cinco, ainda assim, as primeiras sessões tiveram bom público.

Fitz sorria de orelha a orelha, deslumbrado com os números: o dele e o da caixa registradora.

E a noite, ainda mais com o novo quadro do Louis Armstrong, prometia. Muito.

Ao final de cada sessão, ia para seu posto na coxia espreitar a plateia, tentando encontrá-la. Sem sucesso. Mas ainda era cedo, lembrava dela apenas na última apresentação do sábado passado.

A sessão das seis e meia foi impecável. Os tempos exatos. O público respondeu à altura. Mais de três minutos ininterruptos de palmas. Pena que ela não estava lá para presenciar. Foi uma de suas melhores performances.

Já a sessão das sete não foi tão boa. Distraiu-se com uma criança que chorava e quase perdeu o tempo da canção. Mas ninguém percebeu. Só ele.

Até a sessão das nove, o teatro lotou. Fitz, que a essa altura já tinha colocado mais gente do que podia, já pensava em uma sessão extra, mas ele foi irredutível, seria a última do dia.

Segundo ato

Seus braços pesavam. Os dedos doíam. As costas travadas. Só continuava na esperança de rever sua musa. Afinal, fora a inspiradora do seu novo número.

Tudo pronto para o último espetáculo da noite. O teatro explodindo de gente. Queria espreitar a plateia, mas não dava mais tempo. Tinha que se concentrar. Mentalmente, desejava com todas as suas forças que ela estivesse lá.

Começou o show e suas mãos, que já eram espetaculares, ficaram ainda mais mágicas. Esqueceu as câimbras, as costas doendo. As mãos eram os próprios animais, o cowboy com o índio. Voavam com a pomba. Subiam aos céus e voltavam. E era como se o próprio Louis Armstrong tivesse aterrissado naquele palco mambembe.

Todos enfeitiçados. Mesmo ele, sentia a magia.

Quando o número acabou, os aplausos foram ensurdecedores. A cortina fechou e a aclamação aumentara junto com um coro, pedindo pelo artista. Foram minutos intermináveis nos quais ele, na coxia, ignorava a ovação e, tenso, esquadrinhava o público a procura dela.

Viveu intensamente a angústia da sua ausência, e decepcionado, quando já achava que ela não estava lá, percebeu a tia num canto. Um sopro de esperança.

O coração batia forte, no ritmo das palmas que não cessavam, quando finalmente encontrou os olhos de sua deusa (mulher?).

Pode perceber lágrimas nos olhos dela. Brilhavam. Deslumbrados. Do lado oposto da tia. Mais próxima do palco, quase na primeira fila, no canto.

Era agora: tinha que falar com ela. Declarar seu amor. Ele a amava. Sabia disso desde que a vira pela primeira vez.

Amava seus olhos, seu olhar.

Amava sua boca, sua voz, mesmo sem nunca ter ouvido.

E se fosse casada? Não vira aliança. E ela não estava acompanhada de homem nenhum. Apenas a tia. Se é que era tia mesmo.

Saiu por trás do palco. Fora, ficou esperando pela porta principal. Era de lá que ela sairia.

Já ensaiava a forma de abordá-la. Perguntaria sobre o espetáculo. Esperaria os elogios que fatalmente viriam. Só então, se revelaria como o protagonista.

Os atos se sucedem

A surdez dela.

Um flashback da infância dele.

A paixão recíproca. Eles não se desgrudam.

Um flashback da infância dela – como perdeu a audição.

Ele aprende a linguagem de sinais dos surdos-mudos.

A tia morre.

Decidem se casar.

Abandona o circo para ficar com ela.

Vão viver juntos.

No começo, o amor na sua plenitude.

Ele abre mão do teatro das sombras.

No meio, a frustração.

A decepção. A raiva, ódio.

Finalmente, o abandono.

Ele volta para o circo.

Decadência.

Ninguém mais quer saber do teatro de sombras.

O arrependimento.

A tentativa de voltar para ela.

A rejeição.

O desespero.

Ele mutila as próprias mãos.

Ela morre sozinha.

Ele é internado num sanatório.

O tempo passa. Fica cada vez mais silencioso.

É transferido para outro asilo: pensam que é surdo-mudo.

Último ato

No asilo, descobre na internet um artista que repete o seu número e é bem sucedido em teatros de Las Vegas. O nome do artista é Raymond Crowe. Ele ri da coincidência – seu nome artístico era Ramon.

Com esforço, vai até Las Vegas assistir ao show. É realmente impressionante. Tempos perfeitos. As transições, os animais (se emociona especialmente com a pomba), a música, Louis Armstrong, mais vivo do que nunca.

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