Sweet Dreams

leia e ouça: the beatles || good night

Now it’s time to say good night

Good night sleep tight

Now the sun turns out his light

Good night sleep tight

Dream sweet dreams for me

Dream sweet dreams for you

(The Beatles || Good Night)

Ela olhou com ternura, amor e muito carinho. Muito. Muito carinho. Suspirou profunda e longamente. Ele. Lá estava ele. Ela pensou em Ringo Starr. Riu da própria tolice e do pensamento sem sentido, já que não havia nada de Ringo nele mas, de fato, em algum momento da sua vida, ele foi o seu Ringo Starr. O seu preferido. O seu predileto de todo o sempre e de todos os tempos. O que conquistou o seu coração. O que a encantou assim, do nada. Simples e sem maiores explicações. E, depois de tudo e de todo esse tempo, lá estava ele, bobo e dormindo, desmaiado no seu sofá. Porra – ela pensou – Mesmo com a piscina olímpica de gim que tomamos, não pode ser verdade tudo o que ele me disse. E ela continuava sem acreditar no que ouviu dele ao longo das últimas horas. Continuou sem acreditar no que conversaram e no que foi dito naquela noite. Os recados dados, as indiretas, as confissões atrasadas, os medos, os receios, as besteiras, os erros, a insegurança, a fraqueza, a covardia e, claro, a preferência dele por loiras. Ela, ruiva, ficou triste, porém resolvida. Vários nós foram desatados, várias dúvidas foram esclarecidas, diversas verdades foram ditas. Ficou surpresa com a imaturidade dele, a insegurança, os medos e as bobagens todas que ele fez, o que ela já suspeitava mas ele, felizmente (ou não), assumiu ter feito. Lamentou. Ficou melancólica. Respirou fundo, ainda mais uma vez, e foi para o seu quarto. Pegou um lençol verde desbotado que estava no fundo do armário e voltou para a sala. Colocou o tecido leve sobre ele e o cobriu com carinho e doçura. Suavidade. Estava um calor dos infernos naquela madrugada, mas a tempestade que desabava lá fora causava muito vento e, convenhamos, pegar uma gripe na porra do verão é muito pior do que amores mal terminados. Sem dúvida. Causa muito mais mal estar. Ela o cobriu e olhou mais uma vez para ele com ternura, amor e muito carinho. Muito. Muito carinho. E, claro, principalmente amor. Muito amor. Mais do que gostaria de sentir. Encheu um copo longo de um destilado qualquer, já que o gim havia acabado, acendeu um cigarro mentolado, sentou no chão próximo a ele e ficou fazendo um cafuné nos seus cabelos totalmente detonados e desgrenhados pelos excessos da noite. Lembrou que ele adorava carinhos nos seus cabelos longos. Enquanto tragava o seu cigarro, ela tentou, por um breve instante, imaginar o que aquele “idiota” sonhava. O que ele queria além de ser feliz. O que ele realmente sonhava e, no final das contas, desejava. O que ele era, de fato? Nunca iria saber. Acabou o quarto cigarro seguido, virou o resto que estava em seu copo e levantou-se. Curvou-se de modo lento e deu um beijo demorado, porém leve e gentil em seu rosto. Desejou a ele, em sussurro, uma boa noite. Uma boa noite. Apenas uma boa noite, repleta de sonhos adoráveis e, caso existissem, também repleta de anjos bons para zelar por ele. Foi para o quarto, abriu a gaveta, enrolou um último baseado e o fumou, enquanto apreciava a tempestade através da janela. Vez ou outra, desviava o olhar por entre a porta aberta para apreciar aquele garoto lindo dormindo em seu sofá. Cansada, já com seu cigarro caseiro terminado e o efeito alcançado, jogou uma almofada para fechar a porta que tinha deixado entreaberta e virou para o lado, acomodando-se naquela cama, agora tão grande. Dormiu com a sensação de dever cumprido e com o coração leve. Ela ouviu uma última vez os raios que explodiam em intervalos longos lá fora e, antes de fechar os olhos, teve a certeza de que, pela manhã, ele não estaria mais ali. Não, ele não estaria mais naquele sofá e nem coberto por aquele lençol verde e desbotado. Ele nunca mais estaria ao alcance dos seus olhos e ao alcance do seu toque. Nunca mais. Deu um sorriso leve ao perceber que a dor havia passado. Ao menos por um instante. Aliviada, fechou os olhos e dormiu em paz. Teve sonhos bons. Sonhos muito bons…

“Close your eyes and I’ll close mine

Good night sleep tight

Now the sun turns out his light

Good night sleep tight

Dream sweet dreams for me

Dream sweet dreams for you”

(The Beatles || Good Night)

Photo: n/d

2 comentários

    1. Fico muito feliz mesmo por esse retorno. Obrigado pelos comentários. Não sei o que coloco não rsrsrs mas fico feliz que tenha eco e que as pessoas gostem. Muito obrigado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s