NOTAS ORNITOLÓGICAS

BEIJA-FLOR

O coração de um beija-flor bate mais de mil vezes por minuto. E nesse mesmo intervalo de tempo, o pequeno passarinho de pouco mais de seis centímetros bate suas asas mais de 70 vezes para se manter flutuando no ar.

Uma vida acelerada, sempre correndo, sempre no limite, que pode chegar a cinco anos. Mas dizem que se ele relaxar, morre.

Também chamado de colibri, ou cuitelo, seu nome em inglês é hummingbird, do verbo hum, murmurar, que no caso dele tem mais a ver com o barulho de suas asas batendo freneticamente.

Para manter esse ritmo, muita energia, muito açúcar, muita caloria. Que muitos beija-flores extraem de alimentadores artificiais como o que o Doutor Peixoto tem na sua varanda do apartamento do Grajaú, limite com a Tijuca.

Peixoto, cioso dos seus visitantes, limpa e repõe diariamente água açucarada para seus meninos (como os chama), que consomem uma garrafinha por dia.

À água, filtrada e fervida, o advogado aposentado acrescenta duas generosas colheres de açúcar. Um ritual diário como outros vários, que o velho começou a cultivar depois da aposentadoria, muito depois da morte de Dirce. Peixoto é viúvo.

Sempre ouviu dizer que se relaxasse, morreria, por isso nunca vestiu pijama depois que deixou a repartição.

Assumiu responsabilidades, virou síndico do prédio, já vai pro quinto mandato. Se inscreveu num curso de Kumon, joga paciência no celular, lê o jornal todos os dias.

Todas as manhãs, sai para caminhar antes da visita diária à padaria, falar mal do prefeito com o amigo Emanuel, dois pães carecas, às vezes um queijo branco, um salaminho, mortadela (apesar do colesterol).

Os filhos moram em outras cidades, um trabalha no Banco do Brasil, o outro ortodontista. Raramente vêm visitá-lo, mas ligam a cada duas semanas.

A paixão pelo Botafogo, time do seu coração arrefeceu. Não vai mais no estádio desde que o alvinegro passou a jogar no Engenhão. Ainda assiste aos jogos que passam na televisão, mas sem o mesmo entusiasmo que agora sente pelos seus meninos voadores.

Comprou vários livros sobre pássaros, alguns caros, grandões, ilustrados e descobriu que existem mais de 150 espécies diferentes de beija-flor no Brasil.

Já identificou oito espécies diferentes na sua varanda, mas o mais comum é aquele azul maiorzinho (para um beija-flor) com cauda em formato de tesoura, cujo nome cientifico é Eupetomena macroura.

Temperamentais, brigam pelo néctar generosamente fornecido pelo idoso, expulsando espécies menores, como os pequenos esverdeados de bico curvo.

As manhãs são o período mais agitado da casa, da varanda, as asas frenéticas, os voos rasantes, a água açucarada novinha em folha, corações batendo mais de mil vezes por minuto.

Peixoto acompanha os pássaros, não se distrai, não relaxa.

Se bem que ultimamente tem sentido uma taquicardia, coração batendo acelerado – nada comparado com seus hóspedes, mas mesmo assim é melhor evitar o salaminho, a mortadela. Mas sem relaxar.

Ainda quer acompanhar seus meninos por muito tempo.

Nota do autor: originalmente ia matar o velho. Mas os pequenos pássaros murmurantes salvaram-no.

TICO-TICO DO CAMPO

Pequeno, passarinho, mas muito gracioso. O bico laranja chama atenção. Sua cabeça, bem marcada, preta com traços brancos junto aos olhos, lembra a do bem-te-vi. As asas, esverdeadas, tem traços bem amarelos perto do ombro. E sua barriga, branca, branquinha, contrasta com as pernas escuras.

Diferente do tico-tico tradicional, meio carijó, esse tem as cores bem definidas. Só não tem o topetinho do seu primo mais comum.

Durante a semana, vive sua vida tranquilo. Nos finais de semana a rotina muda. O casal da cidade grande chega, para passar dois idílicos dias no campo e fugir da rotina alucinada da cidade grande.

Vêm com o carro, que fica estacionado perto de onde fica o seu ninho.

Quando o sol aparece, a lataria do carro se transforma num grande espelho. Ele logo se vê. Mas na sua cabeça passarinho, vê um rival, com a cabeça, bem marcada, preta com traços brancos junto aos olhos, lembrando a do bem-te-vi.

Começa a enfrentá-lo, rival-espelho, que não foge, mas reage a todos os seus golpes, verdadeiras estocadas com o bico laranja.

O duelo dura horas, horas de sol e ele não se cansa, surpreso com a resistência do oponente.

ANDORINHA

Cai a tarde e a última andorinha do bando, retardatária, pia doído, medo de ser deixada para trás.

GAIVOTA

Branca voa a gaivota sobre o mar azul de Lisboa.

PAPAGAIO

Quando criança era visto como prodígio pelos familiares. Os pais, orgulhosos, exibiam-no para as visitas. – Olha como ele é criativo, talentoso, constrangendo os recém-chegados com pilhas de desenhos, esperando, ansiosos, os fatais elogios à precocidade do menino.

Cresceu e aprendeu a usar esse talento. Bom imitador, era o centro das rodinhas na escola. Os outros adoravam suas versões de celebridades, apresentadores de TV, políticos.

Sua escolha óbvia na faculdade, foi o curso de publicidade. A promessa de fortuna criando campanhas milionárias, celebridades, o colorido, a criatividade a serviço do consumo.

Ele teve muito sucesso com isso, repetindo fórmulas, slogans, copiando tendências, imitando comportamentos. A ponto de subir à sua cabeça.

Não distingue mais o simulacro do real. Vive nesse mundo de fantasia, cheio de cores, palavras de ordem, celebridades, brilhante, falso.

Repetindo fórmulas, slogans, copiando tendências, imitando comportamentos.

Hoje é ele quem se exibe para as visitas. – Olha como sou criativo, talentoso, constrangendo os recém-chegados e esperando, ansioso, os fatais elogios.

ALMA-DE-GATO

Com seu piado triste, o alma-de-gato resgata a lembrança daqueles que já se foram.

ARARA RARA

Como diz o triste palíndromo, as araras azuis estão a um passo da extinção. Um último bater de longas asas azuis.

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