Calls do Caos

São 8:50h quando sento a frente da escrivaninha do meu filho, improvisada como home office. Ele aceitou a troca. Estuda e bagunça a sala com direito à tv ligada. Eu uso o recurso de desfocar o fundo para que os clientes não vejam os bonecos do Ben 10 e o pôster do Messi no quarto dele.

São 9h em ponto quando entro na primeira conversa com o pessoal do marketing. São 9h em ponto quando meu microfone insiste em não funcionar e sou obrigado a reiniciar o computador. Acabo chegando tarde à reunião o que não muda a vida de ninguém, a não ser do meu chefe que me olha de cara amarrada.

Estou mais tranquilo no início da segunda reunião às 10:30h. Essa fui eu que convoquei, é o meu show. Ninguém entra na sala na hora certa. Me distraio assistindo os melhores lances de São Paulo e Mirassol no Youtube. Descubro que estão todos me esperando. Eu entrei com meu ID pessoal do Google e caí em uma sala errada. Minha cliente está irritada e diz para marcarmos uma nova data. Era a minha melhor cliente.

Quando chega a reunião das 11:30h ainda estou com a moral abalada. Desta vez é um cliente novo interessado em nosso produto. Desta vez é conexão do cliente que está ruim. Ele ouve 30% do que eu digo. No final o cliente apenas sorri e balança a cabeça, fingindo que entende alguma coisa.

Almoço em casa com o meu filho repleto de energia e converso pelo vídeo do Zap com minha mãe que quer contar o dia que foi igual ao dia anterior e igual a todos os outros dias.

Às 14hs falamos com a matriz em Londres e os desgraçados tem um sotaque de pirata bêbado que nem a rainha Elisabeth entenderia. Meu chefe percebe que estou viajando e fecha a cara pra mim. Na reunião seguinte o microfone não funciona de novo. Mesmo se funcionasse não seria páreo para os gritos no meu filho correndo atrás do cachorro.

Na penúltima chamada do dia converso com o advogado do divórcio. Estou devendo minhas calças, preciso de uns 8 anos de calls para acertar minhas contas. Não adianta jogar o Notebook pela janela. 

São 19h e estou terminando o expediente. Na tela dividida vejo meu chefe me apontando uma arma. Em outra janela, um inglês com uma gaita de foles ri alto e toca Amazing Grace. Em outra tela estão todos os meus clientes rasgando contratos e por fim, há uma janela onde me vejo quando adolescente, estudando em uma carteira escolar e sonhando com a vida adulta cheia de aventuras e possibilidades. O adolescente tenta falar comigo mas nada ouço, os gritos do meu filho e os latidos encobrem até os pensamentos.

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