Valsas Amargas Na Madrugada

leia e ouça: prefab sprout || when love breaks down

E lá estava ela. Uma tola sentada no balcão de um bar horroroso localizado bem em frente ao Clube Varsóvia, lá pelas três da madrugada em uma sexta-feira qualquer. Uma úmida sexta-feira qualquer em um bar medonho repleto de ninguém. Sem clientes. Sem clientes e apenas com uma trilha sonora vagabunda ecoando sem folga a partir de um radinho de pilha deitado em cima do enferrujado freezer das cervejas. Sem clientes e apenas ela e o balconista, atendente, confidente, chato, barman, o que fosse aquele sujeito àquela altura da noite avançada. Ela tomava goles e mais goles de uma bebida barata e de péssima qualidade e fumava um cigarro ainda mais rasteiro, também de péssima qualidade, como se isso fosse possível. Nicotina pura. Mas era o que o pouco dinheiro que ela tinha entocado nos bolsos apertados da sua surrada calça jeans podia comprar naquele momento. E ela fumava os malditos cigarros baratos. Um atrás do outro. Um atrás do outro. E a bebida já estava sendo dada como cortesia pelo balconista agora cansado. Um cavalheiro, enfim, no meio do caos. Um cavalheiro que ela conhecia há tempos. Mais tempo do que gostaria. E chovia. Chovia pra caralho. Gotas muito gordas caindo sem parar. E a música barata não parava de sair do radinho de pilha para explodir em seus ouvidos. Derretendo o cérebro. E chovia pra caralho. Muito mesmo. E ela decidiu que talvez não fosse entrar no Clube Varsóvia. Talvez não. Muito provavelmente não. Na verdade iria depender muito da quantidade do conhaque vagabundo gentilmente oferecido pelo seu amigo (agora, né?) balconista. Mas o problema maior era outro. Não o conhaque duvidoso e nem os cigarros ruins e nem o balconista e nem o radinho de pilha que tocava canções péssimas. O problema estava do outro lado da rua. Do outro lado da rua. O problema era ele. Apenas ele. E ele estava lá dentro.

Dentro do Clube Varsóvia. Ele. E, com certeza, ele estava lá dançando com aquela ruiva toda tatuada e linda que era cruel e adoravelmente perfeita. Perfeita. O oposto dela. Uma afronta às mulheres feias. Ruiva e linda. Muito ruiva. Muito linda. E, na verdade, ele sabia disto, não à toa que estava lá, dançando com a ruiva e sendo feliz. 

Ela? Do outro lado da rua, sentada no miserável boteco vendo a chuva despencar. Literalmente despencar. Sem saber exatamente o que fazer.

– Olha – disse o balconista do boteco de forma até gentil – Não quero me intrometer, mas você vai ficar muito tempo por aí?

– Como? – ela perguntou distraída.

O moço a olhou com compreensão e respondeu – Veja, você está aqui há um tempinho considerável, olhando esta chuva e encarando sem parar a porta do Clube Varsóvia ali em frente. Não entra a porcaria de um cliente nesta espelunca há um tempão. Você vai atravessar a rua e entrar no Varsóvia? – perguntou novamente e de forma direta.

Ela o olhou com surpresa. Nada respondeu. Sabia que ele estava certo. Ela não teria coragem. Ainda não.

– Então… – prosseguiu o balconista – já é tarde. Eu adoraria ir para minha casa. Dormir sabe? Faz bem às vezes – ironizou.

Ela concordou com a cabeça e disse sincera – Me dá mais uns vinte minutos? Mais uma dose de conhaque e um par de cigarros. Pode ser? – pediu – Quem sabe aí me decido e te deixo em paz – completou.

Ele concordou com a cabeça enquanto se virava para pegar a garrafa de conhaque, ainda mais uma vez.

E ela voltou seu olhar para o radinho de pilha.

Do nada, sentiu um toque leve em seu ombro. Perfume absolutamente familiar. Suave e desesperadamente familiar. Virou e não acreditou que era ele. Definitivamente não acreditou. Mas era. Era ele mesmo. Ele. Apenas ele.

– Oi – ele disse ensopado pela chuva e totalmente sem jeito – Tudo bem? – perguntou.

Ela apenas sorriu e se sentiu uma idiota. Apenas sorriu. Nada disse.

 – Cansei do barulho do Varsóvia, sabe? Hoje está difícil – disse com um sorriso.

Ela encarou-o desconfiada e disse – Cansou?

Ele assentiu com a cabeça, balançando seus longos e molhados cabelos pretos.

– E dela? – ela provocou – Cansou de dançar com ela? – perguntou.

Ele deu um sorriso amarelo e respondeu um tanto sem jeito – Ela está lá. Dançando. Nem sabe onde estou. Mas eu tinha certeza que você estaria por aqui. 

– Ah, o bonito virou adivinho agora? Além de otário, agora é adivinho também? – ela ironizou com uma boa dose de raiva no som das palavras ditas.

Ele retornou o olhar e respondeu – Não, na verdade o Cadu me disse que você estava aqui. Resolvi vir.

Ela ignorou o comentário e voltou novamente o seu olhar para o radinho de pilha.

Ele continuou – Lembra do Réveillon do ano passado? Passamos aqui. Lembrei disso. Aliás, nunca esqueci.

– Eu lembro – intrometeu-se o balconista – Eu lembro. Vocês encheram o meu saco sob o barulho de tantos fogos. Podiam ter ido bem mais cedo ao Varsóvia naquela noite. Podiam mesmo.

Ignoraram a sinceridade explícita.

– Então – ele disse. Eu estava lá, mas na verdade estava com a cabeça aqui. Na verdade, com a cabeça em você. Pode apostar.

Ela o olhou tentando disfarçar o carinho e o afeto. Ficou em silêncio. Tentou evitar que o seu olhar transmitisse qualquer sinal.

– Você poderia me perdoar, não? – ele perguntou em voz suave e baixa – Por favor? Realmente, precisamos conversar. Mesmo. De verdade. E é sério. Eu quero terminar bem as coisas. Sem mágoa. Depois de tudo, não precisamos ficar assim. Acabar desta forma e com tudo o que dissemos na última vez. Todas aquelas coisas desnecessárias e raivosas.

Ela o encarou por vários instantes, não respondeu e apenas perguntou – Quer dançar?

Ele a encarou com surpresa, seus olhos abriram assustados e ele perguntou – Dançar?

– Sim, dançar. Não está ouvindo esta canção horrorosa da década sei lá qual, tocando neste maldito radinho de pilha? Esta canção é boa. Quero dizer, serve.

– Ei – disse o atendente – Maldito radinho o cacete. Esse rádio fez muita companhia a você durante a noite toda – emendou, quase bravo com a desfeita, enquanto terminava de lavar os últimos copos americanos deixados junto a pia.

Ela sorriu e o segurou pelos ombros largos e grandes dele e ele disse – Claro. Será adorável. Ela sorriu e o conduziu. 

E dançaram, dançaram e dançaram no apertado salão daquele boteco vagabundo no centro da cidade. O Clube Varsóvia não era mais o protagonista. 

Eles? Sim. 

Eles, a chuva, os sorrisos, os movimentos, a madrugada, o passado, o amor, o radinho de pilha e o beijo. O último longo beijo trocado até o final daquela dança. Um final quase feliz, quase inteiramente feliz, pois a música iria terminar e eles, efetivamente, voltariam à realidade. Pela última vez.

Pela maldita e última vez.

Valsas amargas na madrugada.

Adoravelmente surpreendentes, porém amargas. Lamentavelmente, muito amargas.

Photo: n/d

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