Dona Lourdes e sua língua descontrolada

O filho fora chamado para conversar com o médico no momento mais tenso da noite. A mãe estava na emergência depois de ter sido encontrada desacordada e levada às pressas ao hospital.

“Por sorte o AVC foi leve e não pegou nenhum ponto sensível do cérebro. É possível que ela não tenha qualquer sequela.”

“Sério doutor, nada?”

“Nada” – o médico titubeou um instante – Talvez alguma mudança leve de comportamento…”

De fato, Roberto não percebeu nenhuma sequela. Em poucas semanas Dona Lourdes estava como nova, mas por precaução o filho resolveu trazê-la para sua casa.

“Eu acho melhor que ela não more mais sozinha.”

Roberto era divorciado e sabia que a companhia da mãe iria atrapalhar sua privacidade, só não contava com a tal mudança leve de comportamento.

Os problemas começaram quando Roberto levou Vivi, sua namorada, para jantar em casa. Assim que Vivi foi ao banheiro, Lourdes olhou para o filho e comentou.

“Que peituda!”

“Mãe!!!!”

Dona Lourdes fez o gesto de quem fecha os lábios com um zíper e Vivi não percebeu o incidente. Mas no segundo jantar Dona Lourdes fez pior, desta fez falando direto para a Vivi.

“Não sei como o Roberto consegue dar no couro. Tá gordo como um peixe boi”

A frase infeliz ajudou a encerrar o namoro que já vinha mal.

O que Roberto imaginou ser uma gafe isolada, começou a se mostrar um padrão de comportamento que se repetia sempre que ele tentava apresentar uma nova namorada à mãe.

“Eita mulher caída”

“Tem cara de quem só faz papai e mamãe”

“Essa não goza nem se pagarem”

Roberto ficava desesperado. Levou Dona Lourdes ao psiquiatra mas de pouco adiantou.

“Acho que o médico estava de pau duro.”

Com o tempo Roberto desistiu da vida amorosa e reduziu consideravelmente os contatos sociais. Dona Lourdes sempre fora um exemplo de virtude, voluntária da paróquia, cofundadora da liga das mulheres conservadoras do bairro, nunca falara um único palavrão antes do maldito AVC. Roberto não queria que ela ficasse mal falada na velhice.

Os dois passaram anos e anos isolados em casa jogando cartas e assistindo a infinitas novelas.

“Que bunda tem essa Deborah Secco”

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