Amor Nunca É

leia e ouça: bekah || that girl

– Tem certeza? – ele perguntou rápido e ligeiro.

Ela abaixou a cabeça e sorriu, tímida. Ficou em silêncio e nada respondeu.

– Tem certeza? Mesmo? – ele insistiu.

Após uma longa pausa, ela balbuciou algo sem muita convicção, apesar de querer demonstrar segurança no que afirmava – Tenho. A mais absoluta certeza. A absoluta e mais gigantesca certeza. Você, mais uma vez, está errado.

Ele fez um movimento cínico antes de chacoalhar a cabeça negativamente, deixando claro que não concordava em nada com o que ela insistia em negar e, assim, nada retrucou. Bem humorado, ele sabia que ela estava tentando mudar de assunto. Mexeu os lábios de forma irônica como se quisesse dizer algo, mas não disse. Guardou as palavras para ele, como se fosse algo muito impróprio o que estava pensando, o que estava prestes a dizer. Mexeu as mãos no bolso do casaco e tanto procurou que achou um cigarro bem amassado lá no fundo. Desenrolou e o levou à boca. Antes de acender, ela o interrompeu e segurou suas mãos. Ele a olhou com surpresa e aguardou o que ela estava prestes a dizer. Finalmente. Finalmente prestes a assumir. Ela, com os olhos urgentes e quase em desespero, o olhou lá no fundo, lá dentro mesmo, como se fizesse um salto ornamental em sua retina, pedindo ajuda ou algo muito parecido a isso. Ia falar algo, mas apenas abaixou o olhar, soltou as mãos dele e com um movimento melancólico com os cabelos, apenas o “autorizou” de forma surda a acender o cigarro. E ele acendeu.  Antes da terceira tragada, ele disse com carinho – Sabe, fotos são exatamente o que parecem ser. São retratos. Registram um momento, uma fase, um sentimento, um quadro e um instante. Por isso eu te falei isso. Somente por isso eu falei o que falei. Patins, luaus, rodas de violão, pedras, garrafas de cerveja, sorrisos, praias desertas, só que não tão desertas assim, enfim, eu raramente vi você tão feliz como nos últimos tempos. Raramente. E eu te conheço há quanto tempo já? Bastante, né? Por isso eu tenho essa certeza. Você deixou de ser triste. Não dá para esconder. Não dá. Por isso eu pensei o que pensei, por isso eu disse que… 

– Errado – ela o interrompeu e continuou – Pensou errado. Já te falei que pensou muito errado. Sabe esse módulo da vida? O módulo chamado “amor”? Eu passei longe dele, definitivamente. Nem reprovei, nem nada, eu apenas não fui apresentada a ele. Esse módulo não existiu na minha vida. Na minha educação sentimental.

Ele a encarou com um afeto imenso. Ele gostava muito daquela garota à sua frente. Muito. Gostava demais dela. Amigos e muito mais que amigos. Uma vida juntos. Suave, ele disse – Querida, minha querida, são quase cinco horas da manhã e estamos aqui. O Clube Varsóvia está quase fechando já. Nós estamos aqui e eles estão lá, naquela praia, tão longe. E você não foi. Você simplesmente não foi e sequer explicou a razão. Sequer. Você acha que engana a quem com aqueles sorrisos? A ele? Você por acaso reparou no brilho dele ultimamente? Sempre que está ao seu lado? Quantas vezes nós saímos juntos? Eu os conheço há séculos. Vocês são parte de mim. Os dois. Os dois. Mas, você não está lá hoje. Não.

Ela virou o copo todo de vodka que estava em cima da mesa e fechou os olhos com força.

– Para – ela pediu.

– Nem fodendo – ele respondeu com um sorriso.

Ela o olhou em súplica e chamou mais uma vez a bargirl do Varsóvia e pediu mais uma dose dupla do destilado.

– Você perguntou a ele?

– Você sabe que não pode ser ele. Simplesmente não pode ser ele. Jamais poderia ser ele. Muito errado. Muito. E ele não pode, já que ele está com… – não completou a frase.

Ele parou, deu o último trago em seu cigarro e perguntou – Por que não pode ser ele? Por que não pode? Simplesmente porque você assim entendeu? Sem nem perguntar se ele estava disposto a mudar a vida dele? Se ele quer mudar algo na vida dele? Se nem dar essa chance a vocês?

Ela o olhou séria e objetiva antes de responder – Não pode ser ele, porque para o outro lado nunca é amor. Nunca é amor.  Pelo menos, nunca é recíproco para mim. Nunca é amor – completou e se levantou determinada a ir embora.

Ele a olhou com carinho e disse – Ei, sabe de uma coisa? – perguntou a ela, sem sequer levantar.

Ela retrucou irritada – Não. Não sei porra nenhuma mais.

– Sabe aquela foto, aquela que você postou e brincou com o pessoal para encontrarem o erro? Lembra? E que ninguém disse nada?

Ela percebeu qual era a foto e disse, sem muita paciência – Sei. O que tem?

– Eu sei qual o erro. Eu sei.

Ela nada disse, apenas pediu uma resposta com o olhar.

– Não são as pedras na praia, ou a madrugada morrendo e o sol querendo nascer. Todas aquelas nuvens grafite no céu. Não. Nem tampouco você bebendo uma cerveja e não sua adorada vodka. O erro, o grande erro é que você está sozinha na foto. Esse é o grande erro. Sempre é amor. Sempre é amor, minha querida. Na próxima vez que o encontrar, não deixe escapar a beleza única do momento que nunca mais será. 

Ela fechou os olhos para conter as lágrimas, levou as mãos à cabeça e bagunçou ainda mais os cabelos pretos como o nanquim. Desespero. Jogou a bolsa carmim sobre a mesa, sentou novamente e pediu mais uma dose e um maço de cigarros. A conversa agora iria começar. 

E sim, sempre é amor. 

Sempre é amor.

Photo by Feri Lukas (1970)

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