Enamorados Acordes

leia e ouça: nick drake || road

E ele tocava violão muito bem. Tá, não era um mestre na arte, mas tocava com bastante prazer as músicas que ele realmente gostava. Nos momentos em que estava feliz ou triste, ele amava tocar e tocar e tocar o seu velho violão. Só não amava mais esse prazer do que conversar com a garota que ele conheceu “lá atrás”, em algum momento da sua vida que nem lembrava mais. Apesar dos seus poucos anos, parecia que a conhecia há décadas e décadas. A sua melhor amiga, desde sempre. Ele a adorava. Verdadeiramente. Adorava passar as noites de sábado na casa dela, quando seus pais viajavam, bebendo alguma coisa, fumando cigarros (e algo mais), papeando e, claro, tocando violão para ela. Ela pedia as músicas e ele só seguia tocando e emendando uma na outra. Uma após a outra. Ela pedia REM, Smiths, Wilco ou folk – sim ela amava folk ou algo similar, e lá ia ele agradá-la com seu dedilhado macio, experimentando um arranjo aqui e outro ali para reproduzir as canções. Mas ele percebeu, um certo dia, que havia mais do que muita coisa entre eles. Havia mais do que uma amizade de tanto tempo. Havia muito mais do que se pode explicar. Ele percebeu que ela estava bastante diferente nos últimos dias, nas últimas semanas. Ele sentiu algo suspenso no ar. Ele percebeu, enfim, que jamais havia sentido algo assim por outra pessoa. Aquele sentimento, sabe? Aquele sentimento tão verdadeiro que as pessoas chamam de amor. Ele, enfim, reconheceu que a amava. Na sua forma mais brutal, na sua forma mais intensa, na sua forma mais bela e na sua forma mais cruel. Então, ele resolveu demonstrar tudo o que sentia, por pior que fosse o resultado, por piores que fossem as consequências. E, assim, com carinho e uma inspiração rara e bela, ele mexeu os seus dedos e começou a compor uma linda balada de amor, especialmente escrita e composta para ela. Assim foi. Noites foram passadas em claro, acordes de todos os tipos foram experimentados, letras e mais letras foram escritas e ele, depois de muito tempo, se deu conta de que a música para ela estava definitivamente pronta. Sua pequena obra-prima em que confessava todo o seu amor. Seu pet sounds particular. Naquela noite quente de sábado ele chegou animado e feliz à casa dela. Ela, por sua vez, também estava radiante, com um brilho enigmático no olhar. Um brilho diferente. Parecia saber o que a esperava.

Mas não sabia, podem apostar que não.

– Preciso te dizer uma coisa muito importante – ele disse, assim que entrou e enquanto já  encostava o violão perto do sofá antigo que combinava tanto com o tapete vermelho da casa dos pais dela.

– Eu também. Algo maravilhoso – ela interrompeu, ligeira e mal contendo a ansiedade – Algo que certamente precisará de uma de suas músicas especiais seguido de um de nossos brindes especiais – ela brincou..

Ele a encarou com curiosidade e algo arrepiou a sua nuca – Que bom. Espero que sim. O que houve? – perguntou, animado.

Ela respirou fundo, apertou as mãos junto ao peito e disparou com um brilho no olhar que ele poucas vezes havia visto – Estou totalmente apaixonada.

Surpreso, ele retrucou: – Apaixonada?

– Sim. Apaixonada. Apaixonadíssima, amando. Eu estou amando e finalmente sendo correspondida. Ficamos juntos, mais uma vez, hoje à tarde. Lembra do Zeca? Que estudou com a Letícia? Então, finalmente rolou de ele querer ficar junto mesmo. Saímos várias vezes e as coisas estão indo tão bem há muitas semanas já, mas hoje ele finalmente se abriu mesmo. Ele quer ficar mesmo comigo porra. Eu quero tanto isso. Estou feliz prá caralho. Muito, muitíssimo feliz.

Ele respirou torto e reagiu com disfarce e surpresa – Ora, você nunca me disse nada – disse, tentando esconder da melhor forma possível os bilhões de estilhaços em que havia se transformado.

– Ah, não quis falar. Fiquei constrangida. Você bem sabe a quantidade de erros que cometi todos esses anos e não queria te encher o saco com mais um fracasso. Ah não, você merece escutar as minhas chatices. Já escuta demais. Então, esperei ter certeza. E a certeza entre nós dois apareceu. Finalmente. Ah, você entende. Então, me desculpa e let´s celebrate baby – ela disse, aos pulos.

 – Fico feliz – ele mentiu.

– E você? O que queria dizer? – ela perguntou com um sorriso no olhar. Toda sincera e feliz. Toda ela.

Ele acendeu um cigarro, deu uma tragada demorada e respondeu – Ah, nada especial. Queria te mostrar uma música que fiz para a minha irmã dedicar ao namorado dela. Amanhã é dia dos namorados, lembra? Mas, mudei de ideia, agora que você me contou essa grande novidade resolvi transformar essa balada que você vai ouvir em uma canção para você e para ele. Fica sendo a canção de vocês. O meu presente de dia dos namorados para você. Quero dizer, para vocês – tentou sorrir (mal conseguiu).

Ela abriu o maior sorriso que conseguiu e disse toda feliz – Você é lindo! Te adoro, amigo! Te amo. Sempre. Você sabe – ela disse, enquanto o abraçava com toda a ternura possível de caber em um só abraço.

E então, ele sentou no tapete vermelho da sala de estar, perto do sofá antigo da casa dos pais dela, e tocou. Com toda a força do mundo, ele tocou uma das mais tristes e belas canções de amor de todos os tempos… uma das mais tristes e belas canções que jamais escreveria novamente.

Jamais…

Photo by Olive Cotton

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