Escolhas, Apenas Malditas Escolhas

leia e ouça: sleepsk8 || jupiter blues

– Então, vamos combinar uma coisa? – ela disse, toda confusa, toda triste, toda atrapalhada, toda ansiosa.

– O quê? – ele perguntou, todo confuso, todo triste, todo atrapalhado, todo ansioso.

Ela disse com a voz afobada – Daqui a uns doze, treze, quinze meses, não importa. O tempo você diz. Então, daqui a esse tempo, vamos nos encontrar aqui, neste mesmo bar, neste mesmo horário, que tal?

Ele olhou para os seus olhos pretos, lindos, e emendou, meio sem jeito, sem esperança – Mas, e se eu nem voltar? Você vai apenas esperar sozinha. Não quero isso. Não quero isso.

Ela odiou aquela crueldade toda dele, aquela verdade áspera e tentou, em vão, esconder as lágrimas que queriam explodir pelos seus olhos pretos, lindos e, agora, também doloridos. Ficou em silêncio.

– Não dá para combinarmos nada. Nada mesmo. Você entende? Não posso te falar uma data. Apenas posso prometer, e isso eu faço agora mesmo, que vou te escrever.

Ela o encarou com raiva, com dor, como se fosse matá-lo com o olhar – Não – quase gritou.

– Não? – ele perguntou, já sabendo a resposta.

– Não. Não prometa nada. Vai acabar prometendo em nome da porra de algum santo que você nem acredita. Nem acredita. Então, não faça isso.

Ele abaixou o olhar. Silêncio.

Pouco depois ela continuou, um tom mais calmo – Não quero cartas, cartões postais, mensagens babacas de whatsapp, palavras escritas de favor. Palavras escritas com pena. Palavras escritas com culpa. Malditas palavras escritas. Prefiro as boas lembranças, prefiro apenas as suas boas lembranças.

Ele entendeu com a cabeça e nada disse. Não quis se defender. Não havia o que falar.

– A melhor combinação entre nós é deixar de combinar qualquer coisa – ela decidiu, com um aperto no peito quase sufocante. Rascante. Dolorido.

– Então, ficamos como? Apenas assim? Acabados? – ele perguntou baixo.

Ela olhou para o alto, desviou o olhar dele. Respirou fundo, voltou os olhos pretos a ele e disparou – Você decidiu viajar, você decidiu sumir, você decidiu o que quis da sua vida e sequer me perguntou o que eu achava. Então…

– Ei – ele a interrompeu – Isso não é verdade. Você podia ter vindo junto. Você escolheu. Não me culpe de novo. Você fez a sua escolha.

– Você não desistiria desta porra de aventura por mim, certo? – ela perguntou.

Ele ficou em silêncio tomou um gole do café que já estava frio sobre a mesa e disse – Não – ele respondeu, seco e direto – Não. Não desistiria. Nem por você, nem por mim, nem por ninguém. 

Ela segurou ainda mais as lágrimas dentro dos seus olhos pretos incrivelmente inchados e doloridos e concluiu – Então. Então, acho que é isto. Melhor ir, acho que daqui a pouco seu voo parte. E o abraçou.

Forte.

Muito forte.

E houve abraços e lágrimas e despedidas e muita, mas muita mágoa e ressentimento. Mas também um momento final de carinho. E amor claro, ele sempre esteve na cena.

Um momento de adeus.

Como deve ser (deve?).

E, após vê-lo sumir pela porta de vidro da área de embarque, ela respirou ainda mais fundo, virou e, enquanto andava em direção à saída principal do aeroporto, decidiu parar. Apenas parou, pensou e tirou da bolsa pequena de veludo azul um pedaço de papel. Amassou com força, muita força, e jogou aquela passagem aérea no cesto de lixo mais próximo. Colocou os seus óculos escuros e andou depressa em direção à saída, pois o que ela mais queria naquele momento era acender um cigarro para celebrar o alívio de ter escolhido, pela primeira vez em toda a porra da sua vida, o seu próprio destino. O seu próprio destino, ainda que à custa de muita dor. Muita dor.

Photo by Edward Keating (2000)

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