Como Se Fosse Fácil Entender

leia e ouça: herbert vianna – junto ao mar

E ela estava lá. Ela estava sentada naquele banquinho de descanso confortável, com as pernas desnudas e os seus cabelos úmidos. Úmidos depois do seu banho longo e agora devidamente enrolados em uma antiga e macia toalha colorida. Era tudo o que ela mais queria. Estar lá. Sentada e parada naquela sacada grande daquele apartamento antigo, apenas olhando e admirando o mar. O mar à sua frente. Denso. Intenso. Misterioso. Ela amava aquela cena à sua frente. Ela amava observar o mar. Amava. Muito. À sua frente o mar, às suas costas, dentro da sala, aquele maldito envelope cinza suavemente pousado sobre o aparelho de som. Uma carta. Sim, uma carta, como se as pessoas ainda as escrevessem. Como se alguém ainda escrevesse cartas. Um pequeno pedaço de papel. Uma carta. Ela chegou e ela já estava a aguardando. Quieta. Traiçoeira. Paciente. Imóvel dentro da caixa de correio na portaria do prédio. A carta estava lá a esperando e ela ficou absolutamente surpresa ao perceber que ela havia enfim sido enviada. Na verdade, não muito surpresa não. Mas, não esperava que ela enfim chegasse assim, sem avisar. Não esperava. Na verdade, não queria. Não queria que ela chegasse e por isso a aflição, o medo, a dor. Não queria abrir a porra daquela carta uma vez que sabia o que o seu conteúdo trazia. Palavras tristes. Muito tristes. Por isso mesmo ela desejava ter força suficiente quando chegasse o momento de ter que abrir aquela maldita carta. Acendeu mais um cigarro e ficou lá, parada na sacada, apenas fumando e imaginando como era imatura, tola e cretina a sua recusa em reconhecer a verdade. A recusa em abrir uma simples carta enviada por alguém que ela ainda queria tão bem. Alguém que ela amava tanto. Tanto. E alguém que ela conheceu tão bem. Tão bem. Medo. Medo das palavras. Apenas isso. Ela apenas estava com medo de ter a certeza sobre o que, no fundo, já desconfiava. Quem nunca se sentiu assim? Quem nunca se sentiu assim? Com medo de amar demais? O fato é que depois de horas ali, apenas observando o mar, ela acendeu um último cigarro encorajador, tragou fundo e ao terminá-lo, deixou a sacada e entrou no velho apartamento. Com vontade, pegou o envelope que continuava parado sobre o aparelho de som e agora furiosa e sem cuidado, abriu a droga da carta. Abriu com raiva, como se o papel e aquele envelope de cor cinza claro fossem responsáveis por toda aquela dor e decepção. Ela abriu a carta e pôs-se a correr os olhos em cada detalhe daquelas letras manuscritas de forma torta, cruel e crua. Pôs-se a correr e a correr e a correr os seus olhos e, ao final das últimas palavras lidas, os mesmos estavam vermelhos e já inchados, afogados em lágrimas. Afogados em lágrimas. Embaçados. E então, ela amassou o papel com força, jogou o que sobrou no chão e deu um grito que possivelmente assustou toda a vizinhança. E, quase sem respirar, ela voltou à sacada e pôs-se a observar ainda uma vez mais o maravilhoso mar. Azul como eram os olhos dele. Acendeu mais um cigarro e assim ficou por várias e várias horas… triste por ele não ter tido a coragem de falar o que sentia e ter recorrido ao velho expediente do uso de uma carta…

… mas, não chorem por ela. Não, não chorem. Ela fez o que deveria ter feito desde o início. Encontrou o espelho na paisagem refletida pelo azul do mar, antes que fosse tarde demais. Antes que fosse tarde demais para mudar o que ele refletia. Antes que fosse tarde demais para pensar em voltar a ser o que era. Antes que fosse tarde demais para conseguir tentar voltar a ser feliz…

Photo by: n/d

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