Cappuccinos Sob Um Céu Cinza E Colorido

leia e ouça: gang of four || damaged goods

– Ana? Ana? Não acredito! – Pedro gritou em direção a uma moça alta, loira e linda, com quem acabara de cruzar na rua e que andava rápido, tentando lutar contra a chuva, armada com um simples e pequeno guarda-chuva cor de café.

Ela olhou para trás em direção àquela voz e o percebeu, com surpresa. Após alguns segundos em que ele a alcançou, sem disfarçar a surpresa ela disse – Pedro? Você?

Ele fez um sinal carinhoso com a cabeça e disse com um sorriso, aproximando-se – Exato. Ana. Pedro. Eu mesmo. Que bom que lembrou – disse, abraçando-a suavemente debaixo do guarda-chuva cor de café.

Mesmo surpresa, ela disse, terna – Bobo. É claro que ainda sei quem você é. Não fiquei senil. 

– Tudo bem com você? – ele perguntou.

– Tudo ótimo. Tudo ótimo. Levando a vida de um modo nada, nada selvagem, como não diria Lou Reed – respondeu sorrindo da própria fala idiota.

Após um hiato que pareceu infinito e uma troca de olhares desconcertada, ele quebrou o gelo e propôs – Escuta, se você tiver uns minutinhos, eu adoraria tomar um cappuccino aqui no Café Central. Prometo que será rápido. Essa chuva está me matando.

Ela o olhou aflita e emendou hesitante – Não sei. Estou atrasada.

Ele insistiu – Pelos bons tempos? Apesar de totalmente fora de moda, essa ainda é uma boa razão.

– Olha Pedro, eu não sei se eu quero, de verdade, reabrir pequenos baús. Entende o que eu digo?

Ele a olhou compreensivo e disse – Ana, eu também não quero. No entanto, não é todo dia que nos encontramos e provavelmente isso vai demorar mais de uma vida para acontecer de novo. Então, é só um cappuccino.

Ela sorriu breve e concordou com um sorriso – Tudo bem, mas só um cappuccino rápido. Tenho mesmo um compromisso.

Assim que chegaram ao café, escolheram uma mesa pequena, deixando de lado o ensopado guarda-chuva cor de café. 

– Estranho nos encontrarmos assim, não? – ele disse, com um sorriso diferente, enquanto se ajeitava na cadeira.

Ela o olhou serena e comentou – Coisas da vida, como dizia a velha avó Jacqueline. lembra dela? Quando menos esperamos, alguma surpresa esbarra conosco. Mesmo que debaixo de chuva. Surpresas acontecem.

– Claro que lembro dela. Ela me adorava. Uma pena. Agora, diga-me, foi uma boa surpresa? – ele perguntou.

Ela olhou de uma forma seca e disse – Encontrar você? Ah, uma surpresa. Apenas uma surpresa. Uma espécie de teste que a vida nos aplica para tirar um sarro das nossas vidinhas rasas e sem a menor graça.

Ele a olhou com certo constrangimento e perguntou – Já faz quanto tempo…?

– … desde a última vez em que nos falamos. No hospital? – ela o interrompeu bruscamente e completou – Treze anos. Treze anos. Quem diria, hein? Jamais imaginei que fosse passar tanto tempo sem te ver, já que você foi uma espécie de tatuagem na minha vida e, veja você, quem diria que estaríamos aqui, de novo, eu e você tomando um cappuccino rápido e molhado sem nenhuma combinação prévia. Apenas pelo destino – sorriu.

– É. Um cappuccino rápido e um encontro inesperado – ele emendou, com certa tristeza – O que será que houve com a gente?

Ela olhou para a chuva que caía lá fora e murmurou distante – Não sei. Eu realmente não tenho a menor ideia. Não sei se fui eu, você ou o próprio João que acendeu o pavio e explodiu tudo. Às vezes, me pergunto se talvez não tenham sido os três juntos que tomaram aquela overdose. Numa espécie de celebração doentia para acabar com aquela vida inconsequente, louca, aquela vida eterna que, na verdade, de eterna nada tinha, né? 

Após instantes pensando ele disse – Também me pergunto isso. Também me pergunto. Eu sei é que doeu demais e eu não tinha nem um mínimo de maturidade suficiente para fugir daquilo tudo. mas fugi. Desculpe.

– Sabe que ainda faço terapia? – ela perguntou – Sabe que ainda tenho sonhos? Os mesmos sonhos e ainda desejo tudo aquilo? Todos aqueles excessos e toda aquela nossa vida adoravelmente destrambelhada e no limite? Adoravelmente descontrolada, mas que eu amava. 

– Adoravelmente lúdica e apaixonada – ele completou. 

Ela continuou – Sabe, os sonhos são geralmente com ele. Com o João. Choro ao lembrar como éramos grudados. Eu, você e ele. Adorável e tragicamente ligados.

– Amigos, muito mais que amigos…

– … que foram ao limite de tudo, né? – ela o interrompeu – É, hoje em dia seria o roteiro de um filme de quinta categoria. Totalmente irrelevante. Totalmente clichê e babaca.

– Mas real – ele disse – Absurdamente real e mais comum do que se pensa. 

Ela o observou em silêncio.

Ele perguntou – Você parou?

– De respirar? – brincou e continuou – Sim, completamente. Não respiro mais. E você?

– Também. Completamente.

– Sabe de uma coisa? 

– O quê? – ele perguntou.

– Só tem uma coisa pior e mais assustadora do que ser anormal, viciada ou pervertida. Ser…

– … absolutamente normal? – agora ele que a interrompeu, o que os fez explodir em uma gargalhada deliciosa, como há mais de treze anos não davam. E gargalharam. Muito. Gargalharam, gargalharam, gargalharam e lembraram de coisas boas e não tão boas naquela tarde de cappuccinos, memórias e, principalmente, um céu cinza mas, claro, também colorido. Assustadoramente cinza e incrivelmente colorido.

E o cappuccino

Bem, o cappuccino, por ser provavelmente o último que tomariam juntos até o fim dos tempos, durou muito mais do que eles haviam imaginado pelo resto daquela tarde.

A última.

A última tarde

Photo: Jean Seberg || Bonjour Tristesse at Maxim’s Restaurant in Paris (1957)

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