O Ballet Dos Lábios

leia e ouça: thee lakesiders || parachute

O Clube Varsóvia não estava muito cheio. Não, não estava. Bem, havia até uma justificativa, pois era uma noite de semana comum. Noite normal. Bem… normal para os outros, claro. Para eles, não. Não mesmo. Definitivamente, para eles aquela não era uma noite usual. O Clube Varsóvia não estava muito cheio e eles estavam sentados de frente um ao outro, perto do balcão do bar. A música de fundo, alta e boa. O DJ, mais uma vez e mesmo sem saber, estava perfeito e a trilha sonora estava adequada para aquela cena. Delicada e precisa. Ideal para uma noite como aquela. Singular. 

Ele?

Ele estava em silêncio e apenas a observava. 

Ela? 

Não. Muito ao contrário, ela falava, falava e falava. Uma montanha-russa de palavras. Ansiosa. Intensa. Verborrágica, diante dele que apenas focava toda a sua atenção naquele momento, no movimento incessante dos lábios dela. Lábios velozes e ligeiros. Finos e bonitos. Lindos. Lábios adoravelmente coloridos por um batom marcante e de bom gosto. Vermelho vivo. Perfeito. Encantador batom. Deliciosos lábios.

Lábios… lábios que ele tanto beijou. Lábios que ele tomou para si com vontade. Uma extensão da sua boca, na época em que eles eram apenas um. Ele e ela. Uma imagem linda.

Ela estava linda e apesar daqueles olhos cor esmeralda tão gigantes e aquele cabelo vermelho, o que o hipnotizava naquele instante eram os seus lábios, pois ela falava, falava e falava.

Ele não ouvia uma palavra. Não, não ouvia maldita palavra do que ela falava e apenas prestava atenção no movimento delicioso da sua boca e dos seus lábios. Apenas prestava atenção naquela dança em vermelho vivo. Lembrou de como eles eram suaves e com um aroma delicado. Como era bom dançar com eles. Uma dança feliz de beijos e toques.

Sorriu.

Sorriu por dentro, claro. E somente por um breve instante, fazendo questão de evitar demonstrar qualquer sentimento. Qualquer um. Lembrou de vários momentos juntos. Na verdade, por um segundo lembrou de quase todos. Cada sorriso, cada viagem, as gargalhadas, fotografias, cada canção, cada filme compartilhado, livros, contos, toques, beijos, perfumes, noites, dias, enfim, cada “tudo”. Cada “tudo” que viveram juntos.

E ela falava. Ainda falava e seus lábios insistiam em dançar. 

Ele percebeu que o movimento deles era como se fosse parte de um ato de ballet clássico. Como se fosse parte de uma coreografia magistral, arduamente ensaiada e perfeita, vinda do coração. Os lábios, naquele movimento frenético da emoção, mostravam-se ainda mais lindos. Isso é puro ballet – ele pensou, enquanto a observava.

E então, abruptamente, a dança parou.

Ele percebeu que ela não movimentou mais os lábios e, portanto, havia terminado tudo o que queria dizer.

Ela levou o copo curto com alguma bebida colorida à boca, tomou um gole longo que deixou as marcas do batom vivo impressas no vidro e, só depois de alguns instantes disse algo que ele finalmente ouviu – E então?

Ele voltou a sua atenção agora para os olhos verdes dela e percebeu que mesmo sem ter ouvido uma ÚNICA palavra do que ela disse durante aqueles momentos infinitos, ele entendeu exatamente o que aquilo significava e ficou ali, apenas sem nada dizer.

– E então? Resolvidos? Amigos? Fica tudo bem, ainda que no futuro? – ela repetiu.

Ele tentou um sorriso leve e piscou para ela de forma gentil e carinhosa.

Ela prosseguiu – Que bom. Que bom. Fico feliz por você e por nós. Isso me alivia. Muito mesmo. Você sabe, a felicidade vai e vem em momentos tão distintos, mas ainda teremos muitos momentos legais, talvez, mas como amigos, tá? Você sempre vai fazer parte de mim. Precisava te dizer todas essas coisas que falei há pouco.

Ele concordou com a cabeça.

– Fico feliz por nós, por saber que ainda assim terei você por perto e você a mim – ela finalizou, enquanto fazia um carinho suave e amoroso em suas mãos,  encerrando em definitivo aquele ballet de lábios em batom vermelho vivo que havia dominado toda a noite.

– Eu também. Eu também – ele mentiu sincero e do fundo do seu coração, certo de que seria a última vez que a veria.

A última. 

E, por dentro, ele apenas desabou e chorou.

E, no final de tudo, pena que o Clube Varsóvia não estava muito cheio naquela noite e poucos puderam testemunhar aquela dança de lábios,  aquele certeiro fim de um ato inusitado, inevitável, aquele derradeiro ato de um ballet romântico e devastador.

Assim como Nijinsky.

Assim como um ballet de lábios.

Aqueles lábios…

Photo By Irwing Penn

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