56 Minutos

leia e ouça: blonde otter – back home

2:32hs. Sábado de madrugada e ela estava lá. Sozinha. Sozinha no seu apartamento gigante e cheio de janelas. E ela estava lá. Acordada e sozinha. De madrugada. Acordada e muito mais do que acordada. Desperta como há tempos não lembrava. Desperta, ansiosa e agitada. 3:15hs. Sábado de madrugada e a luz confortável das velas, nas cores de tangerina e de uva e que estavam amparadas em um porta vela com detalhes de barbante cru, ajudavam a amenizar o ambiente daquele lugar tão cheio de janelas. Tão cheio de janelas que permitiam ver e rever mil vezes a noite e a lua. Janelas que mesmo sem a vista que ela estava (mal) acostumada, ao menos a deixavam mais próxima de admirar o céu. Muito mais. Na real, o apartamento com o seu tanto de janelas infinitas e largas, era maravilhoso. Seria perfeito, e seria o paraíso mesmo, não fosse o vazio ensurdecedor da cama americana larga e gorda gritando ao seu lado. Vazia. Cheia de espaços e, pior, cheia de angústia. Naquele (quase) oásis de veludo e aconchego no meio da floresta de concreto cinza em que ela, agora, morava, havia tristeza. Outro endereço, outra vida, outra cidade e tristeza. Saudade. Havia saudade nesta nova cidade cinza em que ela observava o céu através das gigantes janelas do seu apartamento e que, definitivamente, não davam vistas iguais às suas antigas janelas. Não mesmo. Que saudade do mar, que saudade do Rio – ela pensou, enquanto fechava os olhos para imaginar e lembrar os acordes nada distorcidos que as ondas provocavam em sua mente quando quebravam em dias de maré intensa. Ela sentia falta. Não sei para que tantas janelas nesta cidade. Porra – praguejou. Ela sentia falta do céu, do mar, do sal, das ressacas, da areia, do vento forte, do sol, das janelas, da vista e… dele. Claro. Principalmente dele. Que saudade – ela pensou quase em desespero. Dele. Dele surgindo por entre as frestas. As frestas do seu corpo. As portas. As janelas. A pele. O toque. Tudo. Súbito, ela quis chorar ao se dar conta de que não estava mais no Rio de Janeiro e nem perto dele. Não, não estava mais nada perto dele. E, quando ela lembrou de que havia apenas uma semana que ele decidiu voltar para lá, para a casa dele, para a casa que foi deles, o seu estômago foi esmurrado por uma lufada de mariposas psicodélicas que arrepiaram cada milímetro da sua pele, da sua tez, do seu pescoço e da sua alma. Alma, agora nada calma. 3:54hs. Sábado de madrugada e ela estava sufocada pelas lembranças, pela vontade e pela saudade dele. Olhou milhões de vezes pelas janelas para saber se o dia nasceria logo (como era mais fácil quando havia o mar como referência), ou mesmo se ele apareceria vindo de alguma brisa em sua direção. Procurou o perfume dele em cada um dos travesseiros e das roupas que ficaram “esquecidas” no armário. Ansiosa, ela abriu a caixa de entrada do seu celular para checar, pela enésima vez, se havia alguma mensagem. Alguma mensagem nova dele, um sinal de fumaça, um “oi”, um “como vai?”, um “tchau”, um “e aí”, enfim, qualquer coisa que pudesse fazê-la o sentir próximo. De alguma forma. De qualquer forma. Nada. Apenas, nada. 4:03hs. Sábado de madrugada e, enfim, ela decidiu ir dormir. Quando pensou em deitar, foi interrompida ao ouvir um aviso de mensagem nova no celular. Não acreditou. Definitivamente, não acreditou. Ele. Apenas ele e uma mensagem breve – Acordada? Quero te ver. Ela tremeu inteira antes de digitar as letras mais aguardadas dos últimos dias: S-I-M. Onde você está? Cinquenta e seis minutos depois, o interfone apenas tocou. Cinquenta e seis minutos depois daquela mensagem, daquela pergunta, daquilo que ela mais queria ler, sentir, ouvir, ele chegou. Inesperado. Surpreendente. Sem aviso. Sem explicações. Sem previsões. Sem expectativas ou planos. Ele simplesmente apareceu. 4:59hs. Sábado. Sábado e a madrugada estava apenas começando. Apenas começando para eles e para mais ninguém. Apenas começando. 

E as janelas? Tudo bem ficarem abertas… a Lua não vai contar para ninguém mesmo o que testemunhar.      

Photo By Vivian Maier

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