Sentidos

leia e ouça: cocteau twins || carolyn’s fingers

Sexta-feira. Final de tarde. Cinza. A chuva começaria logo. Uma tempestade. O céu resolveu discordar do sol que havia brilhado o dia inteiro e resolveu dar um jeito de assassinar e encerrar aquele calor sufocante que fazia. Verão. Lógico. Sempre ele e suas tempestades devastadoras. E o céu ficou totalmente escuro. Como a noite. Cinza chumbo como os maiores medos dos segredos que todos escondem. E ela estava lá. Naquela cena. No hall de saída daquele edifício. Ela estudava canto lírico e não queria deixar o conservatório sob a ameaça daquela inevitável tempestade prestes a desabar. Ela não queria se molhar e não queria se resfriar. Não queria perder a voz, ainda mais uma vez. Sempre acontecia isso e então, ela decidiu apenas esperar. Apenas isso. E enquanto esperava, quieta, observando toda aquela chuva que ia começar, ele, um carinha conhecido há tempos do conservatório, apenas se aproximou devagar e ficou perto dela. Depois de alguns instantes, ele disse simpático – Talvez o mundo acabe hoje – falou com um sorriso.

Ela olhou em sua direção e mal acreditou que ele havia, pela segunda vez em uma mesma semana, iniciado uma conversa com ela. Ele vivia no conservatório mas raríssimas vezes eles conversavam. Raríssima. Tímida, respondeu  – Tem razão. Se chover todo esse cinza que está aí em cima, corremos o risco de afogar. Mesmo.

Ele sorriu novamente, um sorriso ainda mais bonito do que o primeiro e perguntou – Vai esperar passar? Talvez ela demore a chegar e a ir embora. Ou, talvez, nem chegue a cair.

Ela discordou com a cabeça e disse – Ah, vai desabar sim. Pode apostar. E vou esperar mesmo. Com certeza eu não vou chegar a tempo de pegar o ônibus e não estou nem um pouco a fim de me molhar inteira. Tenho um recital no próximo final de semana e quero tudo inteiro. Preciso das cordas vocais intactas. Vai ser meu primeiro recital com público de verdade – disse segura.

Ele concordou com a cabeça em aprovação. Entusiasmado, fez um movimento brusco que fez os seus cabelos longos cobrirem parte dos seus óculos e do seu rosto. E disse – Muito bem. Muito bem. Você tem toda a razão em preservar a maravilha que é a sua voz. Não pode privar o mundo dela. Não tem esse direito – brincou.

Ela olhou para ele constrangida e disse, sentindo suas bochechas ficarem totalmente vemelhas – Maravilha? Minha voz? Como você sabe? Nunca me ouviu cantando. Sei que faz as suas aulas de piano, mas também sei que sua classe fica no outro bloco.

– Quem disse? – ele perguntou.

– Eu. Eu sei que a sua classe fica no outro bloco – ela afirmou certeira.

– Não – ele sorriu alto – Eu perguntei como sabe que não ouvi você cantar?

Ela ficou ainda mais sem graça e congelou por um instante. Pensou – Deus, como ele é lindo.  E assim, tão perto, é ainda muito mais. 

– Então? – ele insistiu na pergunta, percebendo que ela havia se perdido em pensamentos.

Ela voltou rápido e respondeu – Ah, desculpe, então eu nunca cantei com platéia. Não te disse que vai ser meu primeiro recital com público? Nunca cantei com platéia antes. Exceto nos ensaios na casa da professora Paulina. Mas você sequer é aluno dela.

Ele fez uma deliciosa cara de culpado e confessou – Teve um dia, já faz um tempo, que eu fiquei escutando você cantar no estúdio. Sozinha. A tarde toda. Linda e sozinha. A Paulina tinha saído e fiquei lá, apenas enfeitiçado pela sua voz. Encantado. O seu modo de cantar. É tão triste. É tão doce. É tão lindo. Encantador mesmo. Mal pude acreditar em meus ouvidos naquela tarde. Somente um anjo ou algo muito próximo a isso poderia cantar assim.

– E como você sabe que era eu que estava cantando? Podia ser qualquer outra garota. Você não tem como saber isso – ela afirmou e se arrependeu imediatamente do que disse.

Ele riu e respondeu – Ah, querida. Eu tenho outros meios de ver e sentir as coisas, que não por meio desses meus cansados e tão cegos olhos azuis – completou com um sorriso antes de dizer – E seu perfume. Inconfundível. Como acha que soube que era você aqui na entrada? – disse com uma boa dose de sarcasmo.

Ela ficou absolutamente constrangida com seu comentário e sem graça pela pergunta idiota que havia feito e completou quase gaguejando – Desculpe. Não quis ser indiscreta ou estúpida ou cretina ou qualquer outra coisa. Desculpe. Eu sei que você é cego. Desculpe.

Ele riu ainda mais alto e disse – Relaxa, moça que canta. Não precisa se desculpar. Não há nada de errado nisso. Eu sou cego e você cantora. E, canta muito bem, aliás.

– … e você é muito gentil – ela o interrompeu.

Depois de alguns segundos de silêncio, ele completou – … e você é linda! Absolutamente linda! – ele elogiou, com um brilho notável no canto dos lábios.

Ela ficou lá, parada, olhando para aquele garoto tão bonito à sua frente, mal acreditando que ela a achava linda. Disse, de forma rápida e sem pensar – Vamos tomar um café na padaria do “seu” Gero? – convidou.

Ele abriu um sorriso e perguntou – Mas e a chuva? Ela vai começar. Não ouviu os trovões? Surdo, ainda não sou – brincou – E a sua voz?

Ela deu de ombros e disse – Não tem problema. Cantar me faz tão bem que eu posso improvisar. Dou meu jeito, me viro, uso o coração, sei lá. Basta ele estar batendo – ela concluiu.

– E ele está? – ele perguntou.

E, enquanto ELE oferecia a ELA, elegantemente, o seu braço para ajudá-la a descer as escadarias do conservatório, ela segurou em seu braço firme e respondeu baixinho – Você nem imagina o quanto. Nem imagina.

E ele apenas sorriu. Apenas sorriu.

Photo: n/d

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