Derretendo

…All I want in life’s a little bit of love
To take the pain away
Getting strong today
A giant step each day
All I want in life’s a little bit of love
To take the pain away
Getting strong today
A giant step each day…

leia e ouça: emily madden || ladies and gentlemen we are floating in space

(spiritualized cover)

Ela parecia flutuar. Flutuar, flutuar e flutuar. Longe, longe demais. Na verdade, embora “flutuasse” em pensamento, ela estava totalmente parada e estática na sua cama pequena de solteira. Inerte. Deitada. Imóvel. Imóvel, mas de alguma forma, acelerada e livre. Livre como poucas vezes sentiu. Veloz. Seu corpo parecia voar. Simplesmente parecia estar voando. E era o que ela mais queria. Voar para longe dali. Voar para longe, longe dali. Voar para sair daquela cama e daquele quarto pequeno e cheio de tantas lembranças, memórias, receios, restos de drogas, restos de nada, pílulas, livros, receitas, desenhos, fotos, tapes e discos. Vinis muito velhos. Ela queria muito sair daquele maldito quarto e ir atrás de algo que realmente valesse a pena. Algo que realmente a fizesse mexer a porra do seu dedo médio, anelar, qualquer um deles. Algo que fosse como uma vida nova, como uma nova vida. Reset. Sem memórias e arrependimentos. Algo novo. Um novo tudo, contrário a tudo o que ela já havia visto e vivido e experimentado. Algo que estava perdido ou tão escondido em alguma esquina escura que, por essa razão, ela jamais encontrou. Por Odin, como ela queria poder flutuar. Definitivamente, ela queria poder voar alto, muito alto. Higher than the Sun. Cósmico. Estratosfera. Mais alto do que o sol, o céu, o espaço e o infinito, se é que o infinito existe mesmo. Como num filme de ficção, como num filme de ação ou filme de horror. Um filme de arte, um filme pornô ou um filme qualquer. Um filme B. Um filme fantástico. Um filme real Não, melhor não – ela pensou. Melhor a ficção mesmo. Chega de realidade. Literatura pulp. Hard Core. Então, enquanto isso, enquanto não era retratada em alguma película de cinema imaginária, ela percebeu que estava obrigatoriamente presa àquele quarto claustrofóbico. Deitada e derretendo, esperando a vida passar, ligeira como em um trailer ou uma vinheta barata e mal produzida. A única coisa que a fazia lembrar de estar viva era o sangue bombando dentro do seu corpo. Sangue ácido derretendo o que quer que houvesse por dentro dela. E doía, como doía. Muito. Porra, pouco importa – ela pensou. Pouco importava mesmo, naquele exato instante, toda essa pequena e inevitável bobagem que era a sua própria vida. Não importava, já que ela não entendia como era possível simplesmente tudo acabar assim, como um sorvete derretido, coberto de lágrimas vermelhas transbordando de um coração triste e cinza. No caso, o dela. E lágrimas muitas por não entender aquele cenário de caos, dor e perda. Por não entender nada. Não entender a perda dos sentidos, da fala, das emoções, do coração, do amor. O amor escoado através de um ralo sujo. Ralo de emoções ralas. Rasas. Ela sorriu. De leve, mas sorriu. Percebeu que todas as substâncias tóxicas e deliciosas estavam fazendo efeito. Há horas e horas e horas já estavam fazendo e só agora ela havia se dado conta. E, apesar de entender tão pouco das coisas, ela compreendeu a chuva lá fora e os sons dos romances das noites quentes. A seda. A seda destroçada pelos seus lábios e sua saliva a fazia entender isso. As pílulas também. E o trem que partia de uma origem desconhecida para um destino ainda mais caótico a fez chorar de forma quase infantil. E a dor de tudo aquilo era desesperadora. Causada por ele dizendo adeus, poucas horas atrás, naquela maldita estação. Dor causada por ele dizendo adeus, por todo o maldito e miseravelmente inevitável sempre…
Hora de derreter. Aquela era a sua hora. Apenas a hora de chorar e derreter. Nada mais do que isso. E, num lampejo, ela percebeu que seu coração não palpitava. Efeito de kriptonita. E ela queria ser a personagem dos seus desenhos. “Mas, minha filha, isso não é real. Estes desenhos são absurdos” – a voz de sua mãe ecoou na memória. Implacável. Lembrança que ela queria evitar. Como tantas outras. E ela sorriu, como se isso adiantasse. Como se alguma coisa adiantasse. Mas, no fundo, tudo o que ela mais queria era apenas que ele estivesse por perto. Perto do seu corpo e ao alcance das suas mãos. Perto do seu coração parado. E, infelizmente, naquele momento e talvez para o resto da sua vida, isso seria realmente difícil. Muito difícil. Um trabalho para super-herói.
E ela não era Clark Kent.
Definitivamente.
E, assim, aceitando o seu tamanho no mundo, ela preferiu apenas ficar na sua posição preferida durante o resto do dia… deitada de costas, olhando para o teto e com os seus dedos todos sujos de nanquim, derretendo. Derretendo e apenas esperando o seu coração voltar a bater. Apenas esperando o seu coração voltar a bater…
E será que voltaria?
Será?

“…I’ve been told
Only fools rush in
Only fools rush in
But I don’t believe
I don’t believe
I could still fall in love with you…

Photo by Antonio Merini

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