Chuva Ácida

leia e ouça: suave punk || heart on your sleeve

Quatro e meia da manhã. Quatro e meia da manhã de mais uma quinta-feira. Quatro e meia da manhã. Madrugada quase no fim. E chovia demais naquela madrugada. Chovia demais. Muito. Muito mesmo. Prá caralho. E ele, pobre tolo, imbecil sem rumo, apenas estava parado em pé junto à esquina daquela rua de bairro, tão deserta àquela hora da madrugada. Tão deserta. E ele estava completamente ensopado, totalmente molhado. Absolutamente úmido dentro do seu casaco sujo e velho de cor barbante. Otário. Um totem de estupidez. Ele realmente parecia um totem de estupidez, erguido por algum ser insano em homenagem aos panacas e imbecis adoradores das madrugadas erradas, tortas e desastradas. Madrugada como aquela, desenhada pelos Deuses brincalhões sob medida para ele. Um totem fixado bem embaixo de uma marquise decadente “decorada” em néon anos oitenta. Uma padaria ordinária. Tão ordinária como… ele. Ele, completamente molhado em seu casaco sujo e puído de cor barbante. Os seus dedos úmidos ainda tentavam com alguma  dificuldade acender mais um cigarro. Apenas mais um cigarro. O décimo quinto daquela madrugada. A marquise do ponto de táxi o protegia um pouco da água espirrada pela chuva, mas o vento não. Definitivamente não. O vento era cruel, frio e o castigava. Poucas coisas estavam ao seu favor naquela madrugada. Muito poucas. Mas quem insiste consegue e ele, enfim, conseguiu. Ao menos, ele conseguiu e acendeu a porcaria do seu cigarro. Acendeu o seu décimo quinto Marlboro e ficou lá, de tragada em tragada, apenas olhando sem parar para a janela do sexto andar do prédio antigo erguido em frente àquela maldita padaria. Quatro e quarenta e cinco da manhã. Madrugada já no fim. E chovia demais naquele início de manhã. Chovia demais. Muito. Muito mesmo. E não havia nenhum sinal de que as coisas iriam mudar. Percebeu, sem jeito, o funcionário começar a abrir a padaria e lhe desejar um “bom dia” tímido e constrangedor. Ele apenas sorriu, sem vontade, de volta. Nada disse. A chuva começou a cair ainda mais forte. Maldito fim de madrugada. Maldito início da manhã. Maldito tudo. Ele ficou por mais alguns minutos olhando incessantemente para a janela do sexto andar do prédio em frente àquela velha padaria que lhe servia de abrigo. Imaginou, em vão, e como um imbecil, que as luzes seriam acesas naquele distante sexto andar e algo anormal aconteceria. Algo bom. Totalmente diferente de como era sua vida naquele exato instante. E ele pensou que ela poderia acenar, ela poderia lhe convidar a subir, ela poderia lhe jogar uma rosa ou mandar um beijo. Gritar eu te amo. Algo cafona. Algo nonsense. Algo… Qualquer coisa…

Mas… nada.

Nada aconteceu.

Nada.

Apenas nada.

E então, somente restou a escuridão do sexto andar e que foi quebrada por um relâmpago desesperado que explodiu e iluminou brevemente o céu da madrugada. Nada mais.

Ela não faria nada. Não aconteceria nada. Nenhum milagre. Ele apenas torceu. Desejou em vão, que algo pudesse acontecer. Cretino do inferno. Cinco e quatro da manhã. Jogou a bituca do seu cigarro no meio fio e entrou na padaria já aberta pelo funcionário já cansado antes mesmo do expediente começar. Foi brecado em sua intenção por um cartaz debochado postado ao lado do caixa que o funcionário gentilmente apontou: “Não servimos bebidas alcoólicas das cinco às dez da manhã. Normas da casa. Favor não insistir”. Ele nada disse ao funcionário, se virou e saiu do local. Tentou segurar o choro em frente à padaria. Não olhou para os lados e nem para as janelas do apartamento lá no alto, no sexto andar. Pegou sua mochila com suas poucas coisas, ajeitou o casaco puído de cor barbante, encaixou o fone de ouvido e resolveu dar uma última olhada para aquele apartamento em que viveu com ela por tantos anos e tanto tempo e com tanto amor, mas que, agora, ficaria para trás. Sem ele. Sem eles. Sentiu saudade do que viveu e do que deixou de viver. O choro chegou. Forte. Intenso. Partiu com as lágrimas, sua mochila e vestido com aquele velho casaco de cor barbante. Não olhou mais para trás. Não olhou mais. Pôs-se a andar rápido. E, mais uma vez na sua vida, ele apenas pensou – Nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas

De fato, nada como uma boa tempestade para esconder as lágrimas e os rastros deixados para trás… os rastros apenas deixados para trás…

Photo By Hannes Kilian (1950)

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