Estalos (E Não Só No Disco De Vinil)

leia e ouça: betty carter || ‘round midnight

Ela sentiu alívio e um prazer enorme ao ouvir novamente o estalo. O ruído. Aquele antigo conhecido dela, o barulho que a agulha insistia em fazer ao pousar nos sulcos iniciais daquele velho disco de vinil da Betty Carter que ela tinha há….. bem, que ela tinha há mais tempo do que podia lembrar. Enfim, ela conhecia aquele ruído e aquele vinil, como se fossem brothers in arms. Irmãos. Irmãos de sangue, parceiros, gêmeos siameses, whatever. Companheiros para qualquer momento da vida, da sua ainda não tão longa vida, na verdade, mas intensa. Bastante intensa. Momentos. Bons e ruins. Momentos péssimos e excelentes. Momentos. Apenas momentos. Deixou o som suave do trompete dançar pela atmosfera da sala, ainda escura por causa do horário. Passava, e muito, da meia-noite. Precisou ver a madrugada. Saiu na sacada e acendeu um cigarro. Mais um cigarro naquele meio de noite. Mais um. Deu uma tragada longa e profunda e apenas observou os poucos carros que riscavam a cidade. Pensou que se não tivesse um motorista dentro deles, os obrigando insistentemente a rodar, os veículos gostariam apenas de ficar quietos. Torpes. Inertes e encolhidos em suas garagens ou qualquer canto, sem a menor vontade de se movimentar pelas ruas e alamedas daquele bairro tão perto do centro da cidade. E ela os entendia perfeitamente. E como… Sabia o que era desejar – e não poder – ficar no seu canto, suspensa, congelada, passiva, quieta. E isso era o que ela mais queria naquele começo de madrugada. Ficar quieta. Apenas ficar quieta. Bem quietinha. Ela sentiu novamente um prazer conhecido e um arrepio ao escutar novamente o ruído que sempre aparecia no minuto seis e alguma coisa do velho álbum de vinil da Betty Carter que ela tinha há… bem, que ela tinha há muito tempo, já disse. Acendeu outro cigarro. Sentiu que a atmosfera estava densa já há alguns dias. Não sabia a razão, ou melhor, no fundo sabia sim, mas o fato é que ela estava tensa. Ansiosa e aflita. Angustiada com tudo o que estava sentindo e com os últimos acontecimentos. Não sabia muito bem o que fazer, a não ser que queria ter alguma varinha de condão para acelerar ou retroagir os minutos, as horas e os dias. A vida. A sua própria vida. Movimentá-la como bem entendesse. Para a frente ou para trás. Para o alto ou bem para baixo. Era o que ela mais queria. Ter o controle. E controle, definitivamente, era o que ela sempre menos teve ao longo de toda a sua vida. Bem, não tão longa vida, na verdade, mas intensa. Muito intensa. Ficou surpresa com o ruído novo que a agulha fez no nono minuto do lado A do seu velho álbum da Betty Carter que ela tinha há… foda-se, vocês já sabem, não vou repetir. Ficou surpresa com esse estalo novo – Ruído desconhecido. Preciso lavar este álbum com urgência – pensou, enquanto olhava aleatoriamente para os carros dançando com suas lanternas vermelhas através da noite. Por um instante, ela tremeu ligeiramente e entrou em um estado de leve desespero, pois não queria passar por todos aqueles momentos ruins que já passou e, muitos deles, não há muito tempo. Não queria. Definitivamente, ela não queria isso. Não. De novo, não. Ela estava com medo. Muito medo. Acendeu mais um cigarro e quando achava que não podia mais segurar as lágrimas que insistiam em se formar no canto dos seus olhos, um estalo forte provocado por um risco intenso, também inédito, agora no minuto quatorze do seu álbum da Betty… chega, não vou repetir, a fez sorrir. Gargalhar sozinha. Gargalhar, e muito. Não. Não foi a interrupção abrupta no maravilhoso solo da canção que causou isso. Não. O ruído apenas a acordou e provocou um estalo que a fez pensar. Pensar e pensar e pensar… NELE. Nele. Decidiu, por um instante, que não tinha que ter medo. Não, porra. Chega de medo. Ela não estava sozinha. Definitivamente, ela não estava mais sozinha. Não era apenas aquele risco que era novo no seu velho álbum de vinil. Percebeu vários outros riscos em sua vida que também eram novos e inéditos que, de uma forma ou outra já tinham deixado a sua marca. Marcas inéditas. Chega de medo – pensou. Inquieta e acelerada, ela apagou o cigarro de qualquer jeito na parede da sacada e correu para o celular que estava em algum lugar na sala. Não, não iria esperar o sol nascer para fazer o que mais precisava. Não. Não iria esperar nem mais um segundo para dizer a ele tudo que precisava ser dito. Sim, naquele exato instante. E, também, sequer iria esperar acabar o lado A daquele velho e maravilhoso vinil da Betty Carter que ela tinha… bem, que ela tinha desde o tempo em que ela não sabia o que era amar. Desde o tempo em que ela não sabia o que era amor. 

E hoje? 

Sim… 

Definitivamente, ela descobriu.

…como um estalo, apenas como um estalo (e não em um simples estalo em um velho álbum de vinil)

Art By Nikolay Ninov

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