Abraços

No começo da pandemia, quando eu estava sozinho, praticamente isolado em meu apartamento, fiz um poema que dizia o seguinte:

“Quando acabar a Pandemia

Ah meu Deus que alegria

Quantos eu vou abraçar!”

Não via meus amigos, não via minha família, todos morríamos de medo do que poderia acontecer.

E aconteceu. Quase dois anos depois, nossos medos se realizaram. Mais de seiscentos mil brasileiros padeceram, entre eles pessoas próximas e amadas.

Por outro lado, todo mundo que quis está vacinado e as UTI’s não estão mais lotadas. Melhor que isso, as mortes caíram mais de 95%, se comparadas ao auge da pandemia.

Só que o sonho que eu tive em que sairíamos todos juntos de nossas tocas e sambaríamos na rua não aconteceu.

Nossa liberdade foi aparecendo aos poucos. Voltamos ao trabalho em dias alternados, começamos a frequentar timidamente lugares públicos e reencontramos amigos, um aqui e outro ali, sempre mantendo distância e nos cumprimentando através do irritante soquinho de mãos.

Nem consigo lembrar o dia exato em que distraidamente apertei a mão de alguém, ainda carregado de culpa e medo.

De repente, dia a após dia, sem que nos déssemos conta, o contato físico foi ressurgindo na forma de palmas que se tocavam ou de um beijinho na bochecha.

De umas poucas semanas pra cá tenho encontrado muitos amigos e adivinha quem voltou? Sim, ele mesmo, o abraço.

Não aquele abraço tímido de quem cumprimenta o chefe na festa de fim de ano da firma. Voltaram os abraços de verdade, nos amigos que tantos queríamos rever. Abraços sem tapinhas nas costas e com direito a repeteco.

_ Deixa eu te abraçar mais um pouquinho?

Nossas festas, agora com mais gente, tem sido um festival de corpos apertados, as vezes coletivamente, o que me enche de felicidade.

Sinto-me como um cão revendo o dono depois de uma viagem prolongada, não importa quanto eu abrace, parece que ainda é pouco.

E sempre será. Todo o carinho do mundo não vai compensar as saudades que eu senti de cada um de vocês, muitos menos trará de volta quem se foi.

Portanto meus amigos, se preparem. Vou abraçar muito, de maneira desproporcional e inadequada. Exagerarei no tempo e na intensidade. Serei taxado de chato, grudento e alguns vão desconfiar da minha sexualidade, mas eu não ligo. Vou abraçar demais.

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