A Passagem

Estamos na Páscoa, tanto na judaica quanto na cristã. A judaica celebra a saída dos judeus do Egito e se chama “Pessach”, na tradução literal algo com “passar sobre”, tanto que em inglês ficou “Passover”.

Logo nos vem a cabeça a passagem pelo mar vermelho, o milagre mais cinematográfico da bíblia, quando o mar se abriu para que os judeus fugissem e depois fechou-se afogando os perseguidores que os oprimiam.

Há outras possíveis explicações para o nome da festa: A passagem da escravidão para a liberdade, a passagem do anjo da morte pelas casas egípcias, a passagem de 40 anos no deserto até a chegada à Terra Santa.

Toda celebração religiosa é um convite à reflexão então os convido a pensar sobre as nossas próprias travessias. Não há vida sem desafios, não há momento da vida, por melhor que seja, em que não estejamos enfrentando uma questão de família, de trabalho ou de saúde. Mal vencemos um revés, outros dois aparecem. Mal comemoramos uma vitória, com o mar se fechando às nossas costas e já temos um deserto para atravessar.

A humanidade está finalizando a travessia sobre a maior pandemia dos últimos 100 anos e já foi obrigada a encarar uma guerra desumana. No Brasil a fome voltou, o fascismo avança, o ódio invadiu os corações. Quando passaremos por isso?

Fechando um pouco a lente da câmera, mais precisamente em minha casa, fizemos o jantar de Pessach, o segundo sem a presença de meu pai. No ano passado foi uma festa triste, minha mãe ainda estava se recuperando da doença e tivemos uma cerimônia super íntima.

Este ano já haviam alguns convidados para a festa e nos divertimos como deve ser. Boa comida, boas risadas, reflexões sobre a páscoa e muito papo furado sobre, cães, gatos, lésbicas e Viagra para generais.

As lembranças de meu pai e meu tio Isaac, embora tenham encontrado lugar à mesa não chegaram a incomodar. No ano passado eram amargas como o maror, ontem eram doces como o Charoset. A sensação é que mais uma travessia foi vencida, docemente vencida, como provavelmente gostariam nossos dois queridos ausentes.

Segue a vida e seguimos com nossas travessias. Muitas vezes tememos os egípcios a nos ameaçar, muitas vezes nos sentimos acuados diante de um abismo instransponível. Mas há que se ir em frente, como nossos antepassados fizeram no deserto e antes disso, diante de um mar bravio.

Feliz Páscoa

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