Da morte, dos quelônios e do fim

Ele foi um dos habitantes mais icônicos das Ilhas Galápagos, no Equador. Se tornou símbolo do arquipélago e da luta pela recuperação do meio ambiente na região. Mais de seis anos depois de sua morte, seus genes estão dando pistas valiosas à ciência. Uma equipe internacional de cientistas sequenciou pela primeira vez o genoma completo de George Solitário, a famosa tartaruga gigante da ilha de Pinta que morreu com pouco mais de 100 anos e mais de 90 kg.

O quelônio era o último integrante da subespécie Chelonoidis nigra abingdoni e por décadas seus cuidadores tentaram fazer ele se reproduzir com fêmeas de uma espécie parecida. No entanto, George Solitário morreu no dia 24 de junho de 2012 sem deixar descendentes.

A população de tartarugas da mesma subespécie de George foi dizimada no século passado, quando colonizadores introduziram cabras na região, que devastaram a vegetação e acabaram com todos os hábitats do cara.

Hoje o corpo embalsamado de George está eternizado e exposto à visitação em um centro dedicado à preservação das tartarugas gigantes, construído em Pinta.

Aos 190 anos, outra tartaruga chamada Jonathan é o mais velho animal terrestre vivo. Igualmente insular, vive em Santa Helena, um território britânico no Atlântico Sul, perto da costa africana. Quando Jonathan nasceu, a rainha Vitória da Grã-Bretanha era apenas uma adolescente. Enquanto a monarca britânica morreu há mais de 120 anos, Jonathan continua movendo-se em torno do planeta Terra.

Já a rainha Elizabeth (“você vê The Crown!?”), do alto dos seus 96 anos já ultrapassou a rainha Victoria em anos de reinado, completando o Jubileu de Platina (70 anos), mas dificilmente vai chegar à longevidade de Jonathan. O tempo de seu reinado está chegando ao fim.

A bisavó do meu filho morreu com 96 anos. Muito tempo para os padrões humanos. George ainda era relativamente jovem. E Jonathan continua firme e forte. Vivendo no seu tempo. Um dia de cada vez.

O filósofo alemão Martin Heidegger finalizou sua obra principal, o Ser e o Tempo em 1926, quando quem reinava na Inglaterra era Jorge V, neto da rainha Vitória. O livro só foi publicado um ano depois, em 1927. Na obra, de mais de 600 páginas, Heidegger vai discutir a experiência do ser que é peculiar ao ser humano, inclusive sua relação com o tempo e com a finitude.

Para ele, o tempo é a instância com base na qual compreendemos as coisas e a nós mesmos. E o sentido de nosso ser é então determinado pelo modo como nos projetamos no tempo. Quando falamos do tempo, falamos de nós mesmos, seres humanos.

O ser humano é o único animal que tem noção da sua finitude. Do seu tempo de existência. Do seu nascimento. Da sua morte.

Cronos, o rei dos Titãs na mitologia grega, pai de Zeus, é o deus do tempo. Cronos, na atualidade, é a definição do tempo cronológico e físico, compreendido como os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos, os segundos, etc.

Enquanto Cronos é a personificação do tempo calculado – aquele subordinado ao relógio e do qual não conseguimos fugir, Kairós é a qualidade do tempo vivido. Kairós é o tempo oportuno, que faz um acontecimento ser especial, memorável, não em seus números, mas em sua significância. Kairós dialoga com o conceito de tempo de Heidegger.

Meu relógio de pulso é um cronógrafo. Sim, ainda uso relógio de pulso ao invés de conferir as horas no aparelho celular. Os relógios de pulso foram inventados por Alberto Santos-Dumont, o pai da aviação. A marca francesa Cartier foi responsável pelo primeiro exemplar o qual deu o nome de relógio Santos. Com ele, Santos-Dumont podia conferir as horas enquanto voava no seu 14 Bis pelos céus de Paris.

O inventor brasileiro foi um dos primeiros seres humanos a voarem. O tempo acelerou graças ao avião. O inventor brasileiro se suicidou, com 59 anos, no balneário do Guarujá, em São Paulo. Sofria de depressão e pôs fim à própria vida – dizem que por arrependimento pela sua maior invenção. Mas acho que do relógio de pulso ele se orgulhava.

Viva cada segundo como se fosse o último. Porque ele pode efetivamente ser.

O ser humano é o único animal que tem noção da sua finitude. Do seu tempo de existência. Do seu nascimento. Da sua morte.

Gilberto Gil tem uma canção linda sobre a morte:

Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer
Qual seria a diferença
Você há de perguntar
É que a morte já é depois
Que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui
Na vida, no Sol, no ar
Ainda pode haver dor
Ou vontade de mijar

A morte já é depois
Já não haverá ninguém
Como eu aqui agora
Pensando sobre o além
Já não haverá o além
O além já será então
Não terei pé nem cabeça
Nem fígado, nem pulmão
Como poderei ter medo, hein
Se não terei coração?

Não tenho medo da morte
Mas medo de morrer, sim
A morte é depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu
Derradeiro ato meu
E eu terei de estar presente
Assim como um presidente
Dando posse ao sucessor

Terei de morrer vivendo
Sabendo que já me vou
Aí nesse instante, então
Sentirei quem sabe um choque
Um piripaque, um baque
Um calafrio ou um toque

Coisas naturais da vida
Como comer, caminhar
Morrer de morte matada
Morrer de morte morrida
Quem sabe eu sinta saudade, hein
Como em qualquer despedida

Gilberto Gil completou este ano oitenta anos. Para comemorar, saiu em turnê com toda a sua família: divide o palco com filhos, netos e bisnetos. Segundo ele, o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Onde ele vive plenamente.

Temos medo de morrer. Como seres humanos temos noção de nossa finitude. Teremos de morrer vivendo, sabendo que logo iremos, diz o Gil. Diferentemente de George, o Solitário. Diferentemente de Jonathan que se preocupam apenas com as coisas naturais da vida, comer, caminhar, mijar.

Contamos o tempo que falta. Nos minutos. Nas horas. Nos dias. Nas estações. Nos calendários. Nos relógios de pulso. Nos cronógrafos. Estamos em agosto, o mês mais longo do ano. O mês que demora mais para passar. Pode ter 31 ou 104 dias.

O tempo passa cada vez mais rápido nesses tempos digitais. O tempo acelerou graças ao bit. É tudo num clique. Instantâneo. Imediato. Hoje. Agora. Já. Já foi. Mas o mês de agosto demora a passar. Tentamos arrastá-lo com o dedo. Mas ele pode ter 31 ou 104 dias.

Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro, cantava o bigodudo Belchior, que morreu em 2017 aos 70 anos de idade na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul. Hoje sua música reaparece em reinterpretações de sucesso para uma geração que nunca o viu cantar. Belchior morreu, mas nasceu de novo.

Temos medo de morrer. Como seres humanos temos noção de nossa finitude. Por isso queremos nos eternizar de alguma forma. Podemos ter filhos, ter netos, com sorte bisnetos como Gil. Gil e Belchior compuseram canções grandiosas. Heidegger elaborou um tratado filosófico que é discutido e estudado até hoje. Eu escrevo.

Que horas são agora? “Time to die”, disse o replicante Roy no monólogo final do cultuado filme de ficção científica Blade Runner de 1982.

Já passou muito tempo e eu escrevi pouco mais de mil e duzentas palavras nesta crônica banal que estou apanhando para terminar. Botar um fim nela. Uma conclusão. Uma palavra. Três letras: fim.

Aproveitei o tema da crônica e roubei a playlist do grande Carlos Franco para compartilhar. Acho que combina…

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