200 anos ou, uma batida de asas de um colibri.

Duzentos anos. Duzentas voltas completas do planeta ao redor do Sol. O movimento astronômico chamado de translação. 365 dias e mais alguns quebrados (cinco horas, 48 minutos e 46 segundos aproximadamente) arredondados a cada quatro anos.

Parece que foi ontem. E na verdade foi. Não ontem, mas há instantes, um piscar de olhos, uma batida de asas de um beija-flor, um colibri.

E do dia da chamada independência para o dia do chamado descobrimento, outro piscar. Um tico. Um cuspe. Um nada.

Porque terra papagalli já estava aqui. Há muito mais tempo.

E esses que aqui estão acabaram de chegar. E se dizem independentes daqueles outros que acabaram de chegar.

E nem eles, muito menos aqui, o local, a terra papagalli, é independente de nada. Dependemos de todos. Dependemos de tudo. E tudo depende de tudo. E de todos.

Sozinhos não somos nada. Não somos um tico, um cuspe. A terra sozinha não é nada.

Mesmo lá de onde vieram esses que bradam independência, lá só existe graças a aqui. Sem cá não tinha lá. Lá depende de cá. E lá não é tão mais antiga assim. Menos de três mil anos que Portugal existe como país independente.

Menos de 35 mil anos que a Península Ibérica foi ocupada por humanos.

E são menos de 200 mil anos desde que os primeiros humanos modernos têm seu registro fóssil no continente africano.

Continente africano este que era grudado na terra que se assume independente hoje há 200 anos, há mais de 65 milhões de anos.

Um piscar de olhos, um bater de asas de um colibri. Pouco tempo para esses, que se dizem independentes há 200 anos, entenderem o verdadeiro conceito de dependência e tempo.

200 anos, pouco mais que a vida de uma tartaruga de Galápagos, que quase foi extinta pelos mesmos que “descobriram” esse hoje “independente” pedaço de terra.

Um sopro. Um mísero instante. Um bater de asas de um colibri, de uma borboleta. Que influi e afeta o mundo todo, todo interdependente. Como essa terra papagalli que se diz independente há duzentas translações do planeta ao redor do Sol.

Planeta que é absolutamente dependente dessa estrela central que em cerca de cinco bilhões de anos terá esgotado todo hidrogênio de seu núcleo e engolirá todos os planetas do Sistema Solar.

Daqui a pouco. E de nada vai adiantar ser um país independente, no hemisfério sul desse planeta azul. Um país que recebeu o nome devido a uma árvore que fornecia para aqueles que supostamente o descobriram, o valioso pigmento vermelho.

Pigmento esse que já não vale mais. Foi valioso por pouco tempo. Nem duzentos anos.

Um piscar de olhos. Um bater de asas de um beija-flor, de um colibri brasileiro.

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