A Espera de Penélope

Aposto que Penélope acompanhou no cais, de longe a partida da frota de navios que levou seu marido Ulisses para a guerra de Troia. A vejo acenando triste, para os navios que sumiam no horizonte, levando com eles um exército que ficaria anos desaparecido, sem dar uma única notícia.

E os anos comeram a paciência de Icarius, pai de Penélope que queria a ver a filha casada novamente. Então foi feito um pacto. Penélope teceria um sudário, e ao fim da obra, casaria novamente, com quem seu pai indicasse.

Porém, o amor por Ulisses falou mais alto e Penélope todas as noites desmanchava o trabalho que fizera de dia. Repetindo a operação até a volta de Ulisses, anos depois de dado como morto.

O amor infinito de Penélope lhe deu a força e a fé para esperar sem que houvesse provas de que Ulisses voltaria. Ela se ancorou somente na esperança e de esperança viveu.

Penso em Penélope quando vejo a sociedade de hoje.

Somos capazes de esperar? Seríamos capazes de abdicar de nossos prazeres em nome da espera do amado? Da amada? Justo a nossa sociedade, que não consegue esperar um Uber quando ele passa dos quatro minutos.

Somos moldados no aqui e no agora. Compramos 30 mil ingressos de um show no segundo em que ficam disponíveis, avaliamos o trabalho do novo técnico do nosso time pelos 15 minutos iniciais de sua estreia e andamos de escada rolante para não aguardar um elevador.

Imagine uma Penélope de hoje, olhando impaciente para o WhatsApp e aguardando os dois tracinhos ficarem azuis, enquanto Ulisses, em batalha, estava impossibilitado de responder. Aposto que ele estaria bloqueado e cancelado em 5 minutos, ela mandaria o Sudário às favas e sairia com o primeiro contatinho do Inner Circle.

Se não aguentamos esperar 5 minutos como fazer para esperar meses como nossos avós esperavam por cartas? Resistiria o amor às distâncias que o passado nos relegava?

Somos imediatistas e com nossa pressa, enterramos entre outras coisas o romantismo da espera.

Meu bisavô imigrou sozinho para o Brasil para se estabelecer e dois anos depois trazer minha bisavó. A comunicação dos dois só acontecia em cartas. Imagino que eram textos enormes, com longas descrições das saudades.

Saudades que também sinto por esse tempo que não vivi, tão diferente dos nossos tempos de ansiedade e de risquinhos azuis e brigas por curtidas que matam  romances frívolos, tão rápidos como uma mensagem de zap.

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