O SEGREDO DE FRANCIS

Sunset Marquis, Los Angeles, 03 de fevereiro de 1967.

– Entra aí, Tom. Pega um uísque você também. Sei que você é bom de copo.

Visivelmente bêbado, Francis Albert Sinatra está descalço. Usa a calça do pijama e uma regata branca. Sem a peruca. Sobre a cama, um cinzeiro repleto de bitucas. A fumaça deixava menor o quarto enorme.

– Deixa eu te contar um segredo, Tom. Antes preciso dizer que você foi ótimo nas sessões. O disco vai ser um sucesso.

– Estava precisando de um desses para levantar a Reprise. Agora sou empresário da música, sabe como é. Dólares, dólares, é só nisso que eles pensam. É só nisso que elas pensam.

– Mas eu ia dizendo que ia te contar um segredo. Deixa só eu completar meu copo, quer mais?Você é como eu. Você sente. Você vive a música. Aqui dentro. Eu sinto isso quando canto. Senti ontem à noite. As notas vivem dentro de nós. Você entende.

– Eu já te conhecia. Antes do Getz. Já ouvia você. Quem me deu seu primeiro disco foi a Ava. Você conhece a Ava Gardner, não? Que mulher! Nunca ouve uma … pilantra… como ela… Ava.

– Era um disco que você não tocava. Mas você estava lá. Sua música. Elisa. Cardoso.

– Elizeth?… Isso. Tinha aquele menino da Bahia no violão. Gilberto. A Ava tocava sem parar. Bossa Nova é minha bossa. Ficou gravado na minha cabeça. Bossa Nova é a minha bossa. A minha Ava.

– Isso, pega mais um pra mim também. Aliás, traz a garrafa. Tem outra no bar aí atrás.

– Pensei até em parar tudo, fugir para Barbados. Passar o resto da vida na praia. Tenho uma casa lá. Você pode ficar lá quando quiser.

– Acabei casando com essa menina, a Mia. No começo foi bom. Ela me fez esquecer a Ava. Mas durou pouco. Agora fico cada vez mais tempo em Barbados.

– Ano passado tivemos uma briga feia. Eu e a Mia. Ela jogou a Ava na minha cara. Foi quando eu tive a idéia. Esse disco é uma vingança. Trouxe de volta a música pra mim. Trouxe de volta a Ava. A minha bossa.

– Te liguei na hora. Você ficou surpreso? Fiquei com medo que recusasse. Não ria.

– Quando você indicou o alemão para produzir, cacete, foi a glória. E as duas músicas novas que você fez, essa Wave, olha, vou te falar uma coisa. Só perde para Chega de Saudade.

– Deve ter mais uma garrafa aí dentro. Senão a gente pede mais lá embaixo…Isso, aproveita e pega outro pacote de Pall Mall. Meu médico diz que isso aqui vai acabar com a minha voz. Eu não escuto.

– O Claus foi espetacular. Os arranjos, ótimos. Mas faltou você no piano…Ele só não entendeu até agora porque não gravamos Chega de Saudade. Era um arranjo lindo. Só você no violão. Mas eu não podia. Essa música para mim é Ava. A minha bossa. O que sobrou dela para mim.

Não podia expor minha tristeza, como diz a letra, para o resto do mundo. Mas você que é criador dela, para você eu posso mostrar. Pega aquele violão lá no canto.

Quando Frank chega ao final da música, num português impecável, risos e lágrimas escorrem do rosto de Tom, que enche novamente os copos.

Dos dois.

Para ler ouvindo:

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