A Bailarina de Preto

leia e ouça: scott bradlee & postmodern jukebox – mr brightside (feat. blake lewis)

Ele sempre detestou festas à fantasia. Sempre. Pensou sempre nelas como celebrações incrivelmente entediantes. Incrivelmente bizarras. Será que as pessoas já não estão satisfeitas com os métodos normais de lazer como música, filmes, amigos, livros, drogas, álcool, cigarros e outros? Será que é mesmo necessário inventar uma festa temática e tudo o mais? Que horror – ele pensou – Porra, que rabugento eu ficar resmungando. Deixa as pessoas curtirem – ponderou. E, com a boa vontade na cabeça, lá foi ele para aquela festa à fantasia no Clube Varsóvia. Na esperança de, ao menos, se divertir.

Sua fantasia não era das mais originais, óbvio. Escolheu uma banal fantasia de padre. Bem, foi a melhor, mais barata e a mais prática ideia que teve. E, foda-se quem não gostar – pensou novamente ranzinza. Chegou e encontrou com todos aqueles amigos de sempre de quem, na verdade, talvez já estivesse cansado. Assim que entrou, logo ouviu – Viu a Débora? – perguntou o seu velho amigo Cláudio.
– Não. Nem quero. Qual o motivo da pergunta?
– Deixa de ser babaca, cara. Ela está por aí, linda. Vestida de bailarina. Procure, pois você não vai se arrepender. Quem sabe vocês não conversam, se acertam, sei lá. Um padre e uma bailarina. Lindo casal.
– Tá bom. Quem sabe, não é mesmo? – retrucou com desdém e quase nenhuma paciência.
No entanto, mesmo fingindo não se importar, ele ficou instigado e começou, ainda que sem tentar demonstrar, a procurar pela bailarina em questão naquele salão abarrotado, cheio de piratas, odaliscas, dráculas e arlequins. Tremeu de leve com a possibilidade de reencontrá-la. Depois de tudo, de tudo o que foi dito e aconteceu.
– A Débora? Não sei, falaram que ela está por aí, de bailarina, mas eu não vi não – Marta respondeu.
– Ela está aqui sim, André. Bem, ao menos foi o que me disse a Paula. Você já falou com ela? – perguntou Cadu.
E assim ele prosseguiu durante a festa. Fumando e bebendo e perguntando aos amigos sem, no entanto, localizar e ter a certeza se ela estava mesmo naquela maldita festa à fantasia do Clube Varsóvia.
De repente, ele viu. Perto do bar. Lá estava ela. Uma bailarina linda. Toda de rosa e com uma máscara suave cobrindo parte do seu rosto. Seu coração disparou como da primeira vez que a viu. Tomou um gole forte de gim para ter a certeza de que não desviaria antes de chegar próximo a ela.
– Oi Débora, tudo bem? – ele perguntou tímido e com medo de uma resposta agressiva ou indiferente em razão de tudo o que houve.
A mulher virou em sua direção e respondeu simpática e elegante – Débora? Não, eu lamento, meu nome é Letícia. Bem, muito prazer mesmo assim – respondeu com um sorriso.
– Desculpe – ele disse um tanto frustrado – Confusão, sabe? A luz, a música, a bebida. Mil desculpas – justificou.
Ela sorriu de modo um pouco mais acentuado e disse – Deixa para lá. Não tem importância. Festas são assim. Mas, você não me disse ainda o seu nome – ela emendou, com um brilho incomum nos olhos.
hmmm… Sinatra – ele respondeu.
– Como? – ela disse, não entendendo o que ele murmurou.
Ele sorriu e corrigiu rápido e agora mais alto – Sinatra. Frank Sinatra. Adoro essa música do Sinatra.

Ela o olhou com interesse e respondeu – Ah, mas isso não é Sinatra.

Ele parou, escutou melhor a canção e corrigiu – Tem razão. Não, não é. Caramba, eu não te disse que estou confuso esta noite? Muito. Mas, de qualquer forma, a música do Clube Varsóvia hoje está excelente, não está? Quase me fez esquecer o que vim fazer aqui hoje.

– Dançar com bailarinas? – ela perguntou rápida e ligeira.

Ele a encarou, pensou por um instante e respondeu direto – Sim. Você é uma bailarina não é? O que está tocando não é exatamente Sinatra, mas não importa. O que exatamente eu vim fazer aqui hoje foi ter o prazer de dançar músicas encantadoras com bailarinas vestidas em rosa. Vamos? Meu nome é André, a propósito – ele sorriu.
Ela gostou dele, da frase dele e disse animada – Claro. Vamos.
– Será ótimo dançar com uma bailarina – ele brincou.
– Será ótimo perverter um padre – ela provocou e foram juntos em direção a pista do Clube Varsóvia dançar algum jazz moderno, ou o que quer estivesse tocando aquela altura da madrugada.

Então, ao começar a dançar com a sua inesperada bailarina, ele não percebeu ao fundo do salão uma moça parada e quieta. Uma moça toda vestida de preto que fumava um Marlboro e os observava, imóvel. Uma bailarina vestida de preto, na verdade. Maravilhosa como se fosse a primeira bailarina em alguma adaptação do Lago dos Cisnes feita por uma grande companhia. Triste, ela abaixou a cabeça e apagou o cigarro no chão com os seus pés calçados na sua pequena sapatilha. Levantou o olhar e encarou uma última vez o casal que se divertia na pista. Fechou os olhos, virou e foi silenciosa, cabisbaixa e com pequenas lágrimas se formando no canto dos seus olhos, direto para a porta de saída do Clube Varsóvia. Entendeu, naquele instante, que o pas de deux havia terminado para ela. Simplesmente terminado.

Photo by Juli Kosolapova from Unplash

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